No Campo Santo
Nossa Senhora, cheguei agora
Do Campo Santo, e dentro dele,
Na dor que impele o amargo pranto,
Uma mãe vi chorar a sorte
De quem, na morte, morava ali:
Chorava o filho, que o lindo brilho
Do olhar perdera, como perdera
A linha rosa de primavera,
Casta e cheirosa, da meiga boca
Que ela beijava seguido, e louca,
Quando, ansiosa, o amamentava.
Mesmo o menino, era o divino
Retrato amado de um querubim,
Com os cabelos sempre em novelos
De fios de ouro e de cetim.
Em cada face, uma vivace
Papoula havia, toda orvalhada
Da luz dourada de um claro dia.
Uma covinha engraçadinha
Ei-la no rosto, de lado a lado,
No sazonado fruto de agosto.
— Graça lhe dava, quando ele, rindo,
Cantarolava... cantarolava...
Bem crescidinho, fez-se roceiro;
E, no caminho, de quando em quando,
Cantarolava... Cantarolando
Ia deixando, na paz dos vales;
Pelas escarpas, ais de atabales,
Gemidos de harpas, soluços de harpas...
Livre dos tombos, caçava pombos,
Pelas coivaras; e, nas florestas,
Ardendo em festas, caçava araras...
De manhã cedo vagava ledo,
Numa canoa... E quantas vezes
Guiava as reses para a lagoa.
Do carro à frente sempre imponente,
Chamava os bois; e, pelo barro,
Ouvia o carro chiar depois...
E, no terraço, a mãe ao vê-lo,
Erguia o braço para prendê-lo,
Porque no mundo só ele havia,
Na poesia do amor profundo...
E meditava: — “Se acaso a morte
Um dia viesse, e lhe trouxesse
Uma mortalha, das que espalha
No mundo inteiro, dentro da mesma
Corpo de lesma ela seria,
Porque ninguém cismar podia
No grande bem que ela nutria
Por esse filho, por esse filho.
Mas veio a morte, faca de corte,
E o lindo brilho do olhar do filho
Querido, amado, ei-lo cortado
De uma maneira traiçoeira...
E então a alma da mãe, sem calma,
Sem um sossego, viu-se no pego
Dos sofrimentos... E os seus lamentos
Negros, estranhos eram tamanhos
Dos próprios ventos agourentos.
E aquela pobre mãe tão tristonha
Ajoelhada sobre o frio chão,
Como quem sonha parece estar:
— Olhos fechados, amortalhados,
Na compaixão de um triste luar...
Luar funéreo que ao cemitério
Profundo desce como uma prece.
E como eu tenho a convicção
Da alma voar para a Mansão
Celestial, na ocasião
Em que a morte, faca de corte
Nos corta a vida bem definida,
Bem material... E como tenho
Toda a certeza que amor igual
Ao maternal não há no mundo;
Por isso venho, Nossa Senhora
Pedir, nesta hora, o almo consolo
Que no teu colo é ninho eterno
E nos teus lábios, doces ressábios
De áureo falerno; e nos teus olhos,
Luz infinita, para os escolhos;
E em tua mão, a direção
Que necessita, no mundo vão,
Nosso triste coração.
Vai até lá ao Campo Santo,
E reviver...
Nossa Senhora, e com teu manto
Enxuga o pranto dessa infeliz
Que não quis ouvir dizer,
Que a gente nasce para morrer.