No Campo Santo

By Juvêncio de Araújo Figueredo

Nossa Senhora, cheguei agora

Do Campo Santo, e dentro dele,

Na dor que impele o amargo pranto,

Uma mãe vi chorar a sorte

De quem, na morte, morava ali:

Chorava o filho, que o lindo brilho

Do olhar perdera, como perdera

A linha rosa de primavera,

Casta e cheirosa, da meiga boca

Que ela beijava seguido, e louca,

Quando, ansiosa, o amamentava.

Mesmo o menino, era o divino

Retrato amado de um querubim,

Com os cabelos sempre em novelos

De fios de ouro e de cetim.

Em cada face, uma vivace

Papoula havia, toda orvalhada

Da luz dourada de um claro dia.

Uma covinha engraçadinha

Ei-la no rosto, de lado a lado,

No sazonado fruto de agosto.

— Graça lhe dava, quando ele, rindo,

Cantarolava... cantarolava...

Bem crescidinho, fez-se roceiro;

E, no caminho, de quando em quando,

Cantarolava... Cantarolando

Ia deixando, na paz dos vales;

Pelas escarpas, ais de atabales,

Gemidos de harpas, soluços de harpas...

Livre dos tombos, caçava pombos,

Pelas coivaras; e, nas florestas,

Ardendo em festas, caçava araras...

De manhã cedo vagava ledo,

Numa canoa... E quantas vezes

Guiava as reses para a lagoa.

Do carro à frente sempre imponente,

Chamava os bois; e, pelo barro,

Ouvia o carro chiar depois...

E, no terraço, a mãe ao vê-lo,

Erguia o braço para prendê-lo,

Porque no mundo só ele havia,

Na poesia do amor profundo...

E meditava: — “Se acaso a morte

Um dia viesse, e lhe trouxesse

Uma mortalha, das que espalha

No mundo inteiro, dentro da mesma

Corpo de lesma ela seria,

Porque ninguém cismar podia

No grande bem que ela nutria

Por esse filho, por esse filho.

Mas veio a morte, faca de corte,

E o lindo brilho do olhar do filho

Querido, amado, ei-lo cortado

De uma maneira traiçoeira...

E então a alma da mãe, sem calma,

Sem um sossego, viu-se no pego

Dos sofrimentos... E os seus lamentos

Negros, estranhos eram tamanhos

Dos próprios ventos agourentos.

E aquela pobre mãe tão tristonha

Ajoelhada sobre o frio chão,

Como quem sonha parece estar:

— Olhos fechados, amortalhados,

Na compaixão de um triste luar...

Luar funéreo que ao cemitério

Profundo desce como uma prece.

E como eu tenho a convicção

Da alma voar para a Mansão

Celestial, na ocasião

Em que a morte, faca de corte

Nos corta a vida bem definida,

Bem material... E como tenho

Toda a certeza que amor igual

Ao maternal não há no mundo;

Por isso venho, Nossa Senhora

Pedir, nesta hora, o almo consolo

Que no teu colo é ninho eterno

E nos teus lábios, doces ressábios

De áureo falerno; e nos teus olhos,

Luz infinita, para os escolhos;

E em tua mão, a direção

Que necessita, no mundo vão,

Nosso triste coração.

Vai até lá ao Campo Santo,

E reviver...

Nossa Senhora, e com teu manto

Enxuga o pranto dessa infeliz

Que não quis ouvir dizer,

Que a gente nasce para morrer.