NO DIA DE ANOS DO CONDE DE VILA-VERDE

By Nicolau Tolentino de Almeida

Não venho dourar enganos;

A vida não é louvor;

Pois também vivem tiranos:

Eu venho, ilustre senhor,

Louvar obras, e não anos.

De homem comum não se exime

Quem não tem virtudes claras:

E pouco fugir do crime:

Consagram-se as almas raras

A trabalho mais sublime;

A trabalho heróico: e creio

Pelo provado aforismo,

Que em sãos filósofos leio,

Que o verdadeiro heroísmo

E fazer o bem alheio.

Tais trabalhos honra dão

Á digna mão que os procura:

Não amo heróis da ambição:

Buscam a sua ventura;

Vós buscais a da nação.

Serem por vós levantados

Os talentos esquecidos;

Do triste os ais desprezados

Serem aos reais ouvidos

Pelas vossas mãos levados;

De quem a vós se acolheu,

Remediar o queixume;

Ter como próprio o mal seu;

É este o vosso costume,

E o gênio que o céu vos deu.

E o trono aos povos propício,

Que vigia em seu favor,

Fez-lhe o geral benefício

De mandar, que em vós, senhor,

O que é gênio fosse ofício.

Partiu ofícios pesados

Com quem os servisse bem:

São projetos acertados:

Quem do trono o sangue tem,

Tenha também os cuidados.

Dai aos gratos lusitanos

Longo tempo mão segura

Contra injustiças e enganos;

E seja a sua ventura

O louvor dos vossos anos.

Mas, senhor, mocos poetas

Vinguem meus esforços vãos:

Musas zombam de jarretas:

Pedem-me as tremulas mãos,

Mais do que lira, muletas.

Fogosos vates empreendam

Altos voos Neste dia:

Musas com musas contendam:

Saiam odes à porfia;

E queira Deus que se entendam.