NO DIA DOS ANOS DE D. MARIA DE NORONHA, DEPOIS CONDESSA DE VALADARES

By Nicolau Tolentino de Almeida

Senhora, os pobres vestidos

Do vosso humilde compadre,

Não o deixam ir aos anos

Da sua ilustre Comadre;

O conhecido colete

De bordadas guarnições,

Encartado há longo tempo

Em colete das funções;

Sobre os seus cansados anos,

De úmido inverno assaltado,

Cheio de invencíveis manchas

Me foi hoje apresentado;

Em vão benfeitor miolo

Lhe esfrega o quarto ofendido;

A minha chorosa mana

Dá o caso por perdido;

E se assim me apresentasse

A tão alta companhia,

As suas nódoas seriam

Manchas da seda, e do dia;

Do tempo a foice raivosa

Não me dá só um revés;

Além de me fazer velho,

Faz-me também descortês;

Mas ele honrou hoje o mundo;

Sois do mundo ornato, e inveja;

Deu hoje mais uma paga

À ilustre casa de Angeja.

Sua mão, que aperfeiçoa

Altos dons da natureza,

A uns lindos, modestos olhos

Vai aumentando a beleza;

Alteia a airosa figura

Sobre a das Graças moldada;

A uma alma a mais digna, e nobre

Dá a mais digna morada;

Justo tempo, eu abençoo

O teu poder desigual;

E em honra de tantos bens,

Eu te perdoo o meu mal;

Cem vezes nas tuas asas

Nos mande este dia o céu;

As virtudes o consagrem

Nos altares de Himeneu.

E vós, ilustre Senhora,

Perdoai coletes rotos;

Valem mais, que inúteis sedas,

Puro incenso, puros votos;

Quis mandá-los em bons versos;

Suou em vão meu topete;

Fui achar a minha musa

Como achei o meu colete.