NO DIA DOS ANOS DO MARQUÊS DE ANGEJA I
A minha musa cansada,
Perdendo os voos ligeiros,
E ao pé de murchos loureiros
Com razão aposentada,
Hoje, senhor, animada
Do amor o da gratidão,
Esquecendo a multidão.
De frios cabelos brancos,
Vem, forcejando os pés mancos,
Meter-me a Iira na mão.
Gratidão seus passos rege;
Quer que em limada poesia
Venha louvar neste dia
Quem em todos me protege:
Nas cordas de ouro, que elege,
Quer que, invocando as Camenas,
Eu cante as horas serenas
Em que o céu piedoso e justo
Para o lado de um Augusto
Me fez nascer um Mecenas.
Eu respondi, que a harmonia
Me fugiu co’a mocidade;
E que a solida verdade
Não depende da poesia;
Que em prosa sempre seguia
Seu acertado conselho;
E que enfim poeta velho
Por teima querer rimar,
É o mesmo que ir dançar
O vosso ginja Botelho.