NO DIA DOS ANOS DO MARQUÊS DE ANGEJA I

By Nicolau Tolentino de Almeida

A minha musa cansada,

Perdendo os voos ligeiros,

E ao pé de murchos loureiros

Com razão aposentada,

Hoje, senhor, animada

Do amor o da gratidão,

Esquecendo a multidão.

De frios cabelos brancos,

Vem, forcejando os pés mancos,

Meter-me a Iira na mão.

Gratidão seus passos rege;

Quer que em limada poesia

Venha louvar neste dia

Quem em todos me protege:

Nas cordas de ouro, que elege,

Quer que, invocando as Camenas,

Eu cante as horas serenas

Em que o céu piedoso e justo

Para o lado de um Augusto

Me fez nascer um Mecenas.

Eu respondi, que a harmonia

Me fugiu co’a mocidade;

E que a solida verdade

Não depende da poesia;

Que em prosa sempre seguia

Seu acertado conselho;

E que enfim poeta velho

Por teima querer rimar,

É o mesmo que ir dançar

O vosso ginja Botelho.