NO DIA EM QUE SEUS MAGISTRADOS VIERAM DE VILA-VIÇOSA
Tejo feliz, que as ondas serenavas
Aos reis que conduzias;
E soberbo do peso que levavas,
Queixumes não ouvias;
Sente outra vez os ombros teus coitados
De duras quilhas, de esporões dourados.
Ferem das praias gritos nas estrelas
Do povo, que esperando,
Mil vezes abençoa as prenhes velas.
Que ao longe branquejando,
Lhe vem trazendo sobre as ondas mansas
Da lusa gente os reis, e as esperanças.
Se abrindo as brancas asas emplumadas
Alvos cisnes não vejo;
Se co’as louras cabeças levantadas
Não vem filhas do Tejo
A pintada galera rodeando,
E c’o peito formoso o mar cortando:
Se azuis delfins não saltam, mergulhando,
Nas ondas prateadas;
Se vaidosos, a quilha levantando,
Nas espáduas douradas.
Não vem guiando a cortadora proa
Aos altos muros da fiel Lisboa:
Se alçando sobre os mares conquistados
A verde, hirsuta frente.
Não vem, inda de sangue rociados,
Do humilhado Oriente,
Feio aurífero Tejo, o passo abrindo,
Ajoelhar ante vós o Gange e o Indo:
Se não vejo na vaga fantasia
Mil imagens brilhantes,
Com que exalta enganosa poesia
Ilustres navegantes,
Falsos enfeites de venal mentira,
Indignos da alta musa, que me inspira:
Nos olhos me fuzila santo lume
De singela verdade;
Ofendem vãos ornatos de costume
A austera realidade;
As lágrimas que vejo, ternas, puras,
Não são, não são fantásticas pinturas.
Um povo, que vos ama, alvoroçado.
Cobrindo as praias vejo;
Outro deixais, em lágrimas banhado.
Ao sul do claro Tejo,
Erguendo os vossos nomes ás estrelas,
E c’os olhos seguindo as brancas velas.
Não chegais em triunfo à augusta corte
Com frota em guerra armada;
Não vejo abrir diante o honor e a morte
A sanguinosa estrada:
Fostes vencer co’as armas da brandura;
Todo o pranto que vistes foi ternura.
Não trazeis ante vós maniatados
Lagrimosos cativos;
Paternos campos não deixais juncados
De corpos semivivos;
Não vejo voltear no altar de Marte,
Tinto de sangue, bélico estandarte.
Singelos corações a vós rendidos,
Por triunfo trazeis;
Troféu maior, do que trazer vencidos
Ricos, soberbos reis;
Talento de reinar, que vos foi dado,
Nos vence os corações, não braço armado.
Fazeis alegre entrar na pátria terra
O americano adusto;
Reconta os casos da passada guerra
À esposa, que com susto
Lhe vai banhando em lágrimas de gosto
As cicatrizes do cortado rosto.
A forte mão, que ainda fumegava
Co sangue não poupado,
Na dura terra com mais gosto crava
O conhecido arado;
E a melhor uso o ferro convertendo,
Em paz herdados campos vai rompendo.
Espalhe sobre exércitos cerrados
Sibilantes pelouros;
Colha, de sangue e lágrimas banhados,
Os fantásticos louros
Quem da sorte chamar dom soberano
Banhar as cruas mãos em sangue humano
Amar a paz, amar a sã verdade.
Enfrear a cobiça,
Saber unir à sólida piedade
Inflexível justiça,
Esta é do trono a verdadeira glória;
É esta de meus reis a honrosa história.