No tear dos sonhos

By Juvêncio de Araújo Figueredo

O largo ocaso é todo umas rosas vermelhas

Desfolhadas na serra... E lá, ao longe, o rio

Recorda uma serpente enorme, junto às velhas

Casas da freguesia. Arfa por tudo o estio.

Tremem, como do mar as ondas, as ovelhas

Em rebanhos, no campo. O sol de ouro, erradio,

Brilha nos laranjais. Pelo ar, quantas abelhas!

E a cigarra parece a luz em murmúrio...

Mas, o que mais me encanta, entre tudo, querida,

É a casa toda branca, alegre e florescida,

Banhada do clarão dos teus olhos risonhos,

Onde teces, ó minha antiga tecedeira,

Véus de esperança para a nossa vida inteira,

No bendito tear dos teus e dos meus sonhos.