No trespasso

By Delminda Silveira de Sousa

Sorrindo esmoreceu, como a bonina

que ao vir da noite as pétalas retrai;

cerram-se os olhos, langue a fronte cai

e ela adormece pálida e serena!

Minh’alma imersa em cruciante pena,

como que sente a vida arrebatar-se,

e voa ao Céu, buscando consolar-se,

e volve à terra para vê-la ainda.

Leve sorriso, placidez infinda

na face a fria morte lhe desenha;

embora a gelidez da neve tenha,

é bela assim como a visão de um anjo!

Eu, triste, olhei-a... e a desventura abranjo

no peito em que vibrara a dor mais forte

o despiedoso e pungitivo corte

que d’outro um coração terno separa!

Ai! só me resta esta lembrança amara!

Esta saudade que no Céu floresce;

memórias de um amor que não esquece

minh’alma triste em cismas dolorosas!

Chorai, ó belas tardes carinhosas

sobre o mármor do leito em que descansa

— pálido lírio de fanada esperança —

a branca virgem irmã das açucenas!

E quando em horas límpidas, serenas,

desmaiado luar brincar nos Céus,

vós, meigas auras que passais amenas,

levai-lhe esta saudade — os cantos meus!