NONEVAR (1908)

By Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos

Senhora Virgem-Mãe — Surjo hoje em vossa festa

Como na Ásia surgiu outrora o Zend-Avesta

Que achou intérprete em Anquetil-Duperron.

Sei vibrar toda a escala hierárquica do som,

Transmitindo minh’alma aos dedos dos pianistas.

À ciência da imortal grei dos gimnosofistas

Alio o alto saber da indiana Trimourti.

Maior que Michelet, sou Rabelais que ri

E arrebenta com o riso a máscara malvada

Com que Deus achincalha a geração inchada

Dos que trazem no sangue a herança de algum mal.

Gozo, além de tudo isto, a virtude especial

Da fluidificação imponderabilíssima

Que reduz a óleo suave e a suave água tenuíssima

A substância malsã da agra injúria mordaz.

Tal um ferro, batendo o osso dos animais

Com a força da impulsão, depressa o pulveriza,

Igualmente a este sol que as plantas carboniza

E ao rígido rigor da xantofila má

Reduz os vegetais receptáculos a

Vírgulas de carvão, glóbulos graniformes,

Eu reduzo também as saudades enormes

A fumaça, a farelo e a outras fragmentações...

Eu venho encher de luz os vossos corações:

Igual ou superior a Zermane-Akerene,

Substituindo o ódio infrene e a atra diatribe infrene

Pela necessidade altruística de amar,

Virgens de minha terra, eu sou o Nonevar.

— Aquele rouxinol feito de sentimento

Que nunca precisou de diabo de instrumento

E nem de outra inferior coadjuvação qualquer,

Para cantar o Amor e as graças da Mulher.

Filha única do Céu, Mulher Paraibana,

Eu celebro nesta hora a dignidade humana,

Que eternamente em vós se consubstanciou.

Vós sois Nossa Senhora em pedaços, e eu sou

A neve que caiu por sobre esta cidade

Para simbolizar a vossa virgindade,

E servir de tapete à flor dos vossos pés.

Não receeis, pois, de mim, as broncas frases cruéis

Que, pronunciadas, ao fulgor destas gambiarras

Caem sobre o coração como oitocentas barras

De bronze bruto ou como ágil tigre, a morder

Deixa na carnação mortal de cada ser,

Toda perpetuidade infame de uma nódoa.

A legião de homens maus — azorrago-a, incomodo-a

Com o hórrido aspecto dum energúmeno a rir,

A palavra que vai dos meus lábios sair

E a palavra que sai da boca de um gigante

E na onda ascensional da acústica triunfante

Galga num jato o ar alto e vai bater no Céu.

Burgueses! Ante mim, tirai vosso chapéu.