NONEVAR (1909)

By Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos

Padroeira soberana: Eis-me, hoje, em vossa casa

Outra vez. Outra vez um fragmento da ampla asa

Materna, com que o kchátria e os sudras protegeis,

Ajoelhado, eu vos peço... Eu vos peço, outra vez,

Com a cabeça oprimida e triste dos que pensam,

A neve tutelar e a bondade da bênção

Que em minha trajetória hão de sempre cair!

Represento, talvez, mais do que o Desatir

A consubstanciação dos tradicionalismos,

O princípio de luz que esclarece os abismos,

O facho acidental caído sobre o caos,

O fogo redentor e útil que os germens maus

Consome, com a eficácia especial duma esponja.

Sem saber declinar os verbos da lisonja,

Eu sou o Nonevar do vosso coração,

— O livro ubiquitário e único de oração,

Em que as virgens do mundo, à hora da tarde, rezam,

Quando a Saudade chega, e os vegetais se enfezam,

E elegíaca, ante o astro ígneo que já se pôs

Estruge a irracional fonética dos bois

Numa canção de instinto, ainda mal educada,

Que a gente ouve, a tremer, com a alma muito apertada,

E uma vontade enorme e íntima de morrer.

Virgens da Paraíba, eu vou aparecer,

— Ênea tiorba, a anunciar, alto e por toda parte

A eternidade do Eu, e a independência da Arte;

Universalizando a emoção singular,

Invariável no tempo, hei de sempre vibrar

Na estática fatal das emoções humanas.

Os gregos com a Odisseia e os hindus com os Puranas,

A máxima figura antiga de Moisés,

A Idade Média com todos os menestréis

E todas as canções que a sua noite encerra,

Tudo que tem erguido e engrandecido a terra,

A lira de Saul e os salmos de David:

Tudo isto, como um Deus, eu trago para aqui.

Sou a revelação do nôumeno absoluto.

Somente eu sei, somente eu conheço, eu perscruto

O mistério do tato e o segredo do som.

Tenho a penetração de Edouard Pailleron

Que para devassar toda a alma feminina

Nunca necessitou de intervenção divina

E artifícios brutais de jogral ou segrel.

Tocaram minha fronte os dedos de Daniel.

E eu, profeta, com a unção desses sagrados dedos,

Agarro a Natureza e lhe arranco os segredos

Um por um, como quem uma autópsia faz.

Homero me emprestou seus versos imortais,

Destarte, irmão da musa hierática de Homero

Assombrando Voltaire e enxotando Lutero

Sem a Maia falaz dos antigos hindus,

Vendo na própria treva a gênese da luz,

Abraçado com o Grand-Être da Humanidade,

Cravando o iatagã terrível da verdade

Na fictícia Omoroka ancestral dos Caldeus

Igual ao coração legítimo de Deus,

A que o Universo inteiro o seu império empresta,

Foi assim que hoje eu vim cair na vossa festa

Como a neve que cai às vezes numa flor...

Adeus, Nossa Senhora! Adeus, Nosso Senhor!