NONEVAR (1909)
Padroeira soberana: Eis-me, hoje, em vossa casa
Outra vez. Outra vez um fragmento da ampla asa
Materna, com que o kchátria e os sudras protegeis,
Ajoelhado, eu vos peço... Eu vos peço, outra vez,
Com a cabeça oprimida e triste dos que pensam,
A neve tutelar e a bondade da bênção
Que em minha trajetória hão de sempre cair!
Represento, talvez, mais do que o Desatir
A consubstanciação dos tradicionalismos,
O princípio de luz que esclarece os abismos,
O facho acidental caído sobre o caos,
O fogo redentor e útil que os germens maus
Consome, com a eficácia especial duma esponja.
Sem saber declinar os verbos da lisonja,
Eu sou o Nonevar do vosso coração,
— O livro ubiquitário e único de oração,
Em que as virgens do mundo, à hora da tarde, rezam,
Quando a Saudade chega, e os vegetais se enfezam,
E elegíaca, ante o astro ígneo que já se pôs
Estruge a irracional fonética dos bois
Numa canção de instinto, ainda mal educada,
Que a gente ouve, a tremer, com a alma muito apertada,
E uma vontade enorme e íntima de morrer.
Virgens da Paraíba, eu vou aparecer,
— Ênea tiorba, a anunciar, alto e por toda parte
A eternidade do Eu, e a independência da Arte;
Universalizando a emoção singular,
Invariável no tempo, hei de sempre vibrar
Na estática fatal das emoções humanas.
Os gregos com a Odisseia e os hindus com os Puranas,
A máxima figura antiga de Moisés,
A Idade Média com todos os menestréis
E todas as canções que a sua noite encerra,
Tudo que tem erguido e engrandecido a terra,
A lira de Saul e os salmos de David:
Tudo isto, como um Deus, eu trago para aqui.
Sou a revelação do nôumeno absoluto.
Somente eu sei, somente eu conheço, eu perscruto
O mistério do tato e o segredo do som.
Tenho a penetração de Edouard Pailleron
Que para devassar toda a alma feminina
Nunca necessitou de intervenção divina
E artifícios brutais de jogral ou segrel.
Tocaram minha fronte os dedos de Daniel.
E eu, profeta, com a unção desses sagrados dedos,
Agarro a Natureza e lhe arranco os segredos
Um por um, como quem uma autópsia faz.
Homero me emprestou seus versos imortais,
Destarte, irmão da musa hierática de Homero
Assombrando Voltaire e enxotando Lutero
Sem a Maia falaz dos antigos hindus,
Vendo na própria treva a gênese da luz,
Abraçado com o Grand-Être da Humanidade,
Cravando o iatagã terrível da verdade
Na fictícia Omoroka ancestral dos Caldeus
Igual ao coração legítimo de Deus,
A que o Universo inteiro o seu império empresta,
Foi assim que hoje eu vim cair na vossa festa
Como a neve que cai às vezes numa flor...
Adeus, Nossa Senhora! Adeus, Nosso Senhor!