NONEVAR (1910)
Alma da Filipeia, ignorada e esquecida
Na mais alta expressão dinâmica da Vida.
Sangue, estuando, a alardear rubros glóbulos bons,
Surge hoje o “Nonevar” de vossas tradições
— Esta privilegiada e grande boca de ouro,
De onde jorra a ilusão que mata a água do choro
Na nascente infeliz das fontes lacrimais.
Não sou como os papéis que, com raiva, rasgais,
— Condensadores maus de obsoletas ideias,
Onde, lúgubres, vêm todas as odisseias
Da dor hereditária e negra de cada um.
O lírico David e o assombroso Naum
Ficam diante de mim agachados colossos!
A energia motriz de meus músculos moços
Lembra o Vândalo e lembra o Alano medieval.
Às vezes, estrangulo a rede neuronial —
De horrendos harpagões, de espírito já pretos
Traçando-lhes visões, pondo-lhes esqueletos
No fundo da consciência infecionada e má.
Mas, para vós eu sou o anacreôntico Eloá
De Alfredo de Vigny — o rouxinol da França.
Pareço muita vez uma ave muito mansa;
—Helênica ave ideal, apolínica flor
Oriunda de qualquer semente superior
Plantada pelas mãos magníficas de Safo.
íncola íntimo do amplo empíreo ático, abafo
Nesta terra de poeira e de implacável sol.
Desejo com veemência ególatra, em meu prol,
Comer neve, beber ânforas de falerno
E num dia de Abril, dormir o sono eterno
No berço maternal de vosso coração.
Oh! abençoado seja o estado de incoesão
Da matéria inicial de onde, um dia, radiante
Nasceu, como de um deus, a célula gigante —
Que fez a majestade enorme de meu ser!
Mefistófeles cruel, maligno e atro, a morder,
Cravando a aspérrima unha incisiva na gleba,
Alucinadamente, a irmanar-se com a ameba,
Arranhando, a tombar e a erguer-se a um tempo só,
Com a língua inchada e horrenda estirada no pó
— Expressão modelar de energúmeno exausto,
Toda a tragicomédia autêntica do Fausto
E as medonhas criações diabólicas da Fé
E o Satan miltoniano e o diabo de Grasset
E os ritos ancestrais de Lao-Tseu e Mafoma,
Tudo isto, na coerência integral de uma soma
São microcosmos vis, comparados a mim.
Dançam agora no ar visagens de cetim.
Sou eu que, reduzido a um flóculo de neve
Imponderável como a molécula leve
Que a sensação visual não pode descobrir
Na ara de vossas mãos, venho ansioso cair!