NOS OLHOS O AMOR EXPLICO QUE TRAGO EM MEU CORAÇÃO; QUE NÃO SE PODE OCULTAR NO PE...
Mandas-me, ó Anarda, em vão
Os olhos meus reprimir;
Que eles sempre hão de seguir
O impulso do coração.
Sem querer sinais darão
Do afeto que não publico
Co’a boca, que mortifico,
Que importa que o não revele.
Se eu, por mais que me acautele,
Nos olhos o amor explico?
Amor os faz descuidados:
Em vão, Anarda, os abaixo;
Pois daí a pouco os acho
Outra vez nos teus pregados.
Trazê-los mais castigados
Não está na minha mão:
Esta continua omissão.
Este erro, como tu dizes,
É um fruto das raízes.
Que trago no coração.
De que serve olhar a medo,
E falar acautelado,
Se um suspiro descuidado
Vem descobrir o segredo?
O sacrifício, este enredo
Pouco poderá durar:
Meus olhos me hão de entregar;
Que um amor na alma arraigado
E como um fogo ateado,
Que não se pôde ocultar.
Tempo e arte tenho posto
Para disfarçar-me em tudo:
Mas sai-me perdido o estudo,
Em vendo o teu lindo rosto,
Disfarça-se mal um gosto,
Que nasce do coração:
Também tu dessa lição
Talvez que bem não saíras.
Se assim como eu sentiras.
No peito a doce paixão.