NOS OLHOS O AMOR EXPLICO QUE TRAGO EM MEU CORAÇÃO; QUE NÃO SE PODE OCULTAR NO PE...

By Nicolau Tolentino de Almeida

Mandas-me, ó Anarda, em vão

Os olhos meus reprimir;

Que eles sempre hão de seguir

O impulso do coração.

Sem querer sinais darão

Do afeto que não publico

Co’a boca, que mortifico,

Que importa que o não revele.

Se eu, por mais que me acautele,

Nos olhos o amor explico?

Amor os faz descuidados:

Em vão, Anarda, os abaixo;

Pois daí a pouco os acho

Outra vez nos teus pregados.

Trazê-los mais castigados

Não está na minha mão:

Esta continua omissão.

Este erro, como tu dizes,

É um fruto das raízes.

Que trago no coração.

De que serve olhar a medo,

E falar acautelado,

Se um suspiro descuidado

Vem descobrir o segredo?

O sacrifício, este enredo

Pouco poderá durar:

Meus olhos me hão de entregar;

Que um amor na alma arraigado

E como um fogo ateado,

Que não se pôde ocultar.

Tempo e arte tenho posto

Para disfarçar-me em tudo:

Mas sai-me perdido o estudo,

Em vendo o teu lindo rosto,

Disfarça-se mal um gosto,

Que nasce do coração:

Também tu dessa lição

Talvez que bem não saíras.

Se assim como eu sentiras.

No peito a doce paixão.