Num baile

By João da Cruz e Sousa

Estavas toda de azul,

Tão majestosa e elegante

Que senti naquele instante

Me pulsar o coração!

Cheio d’afeto, de júbilo

Cheio de amor, de ternura

Num momento de ventura

Enlouqueci de paixão!

Então sentei-me ao teu lado

E contemplei teu semblante,

Tão belo, tão radiante,

Tão puro, casto e gentil!

Teus olhos eram luzentes,

A boca rubra e pequena,

A voz mui doce e serena

Qual d’ave em tarde de Abril!

Teu cabelo era aloirado

Tua cintura era breve

E na face mui leve,

Transparecia o rubor!

Teu todo era um conjunto

De encantadora beleza

Que senti minh’alma presa

Aos elos de santo amor!...

E a dança continuava

Com incessante delírio

Enquanto duro martírio

Ia minh’alma rasgar!

Num antro então d’incertezas

Entrou-me a frágil razão

E num mar de escuridão

A louca foi-se a boiar!...

Era por ti que eu sofria

A tempestade moral!

Para depois por meu mal

Suportar a ingratidão!

E sem saber se me amavas

Quis dizer-te o que sentia!...

Insensato! que não via?

Qu’estavas a lutar em vão!

Não via, pois abrasado

Por tão ardente afeição,

Fui presa — dessa atração

Que tinhas sempre no olhar!

E amei-te tanto... mas tanto...

Que quis dizer-te com ânsia

— Oh! virgem dá-me constância!...

Que hei de sempre te amar!

Assim, assim, te consagro

O mais eloquente amor!

Enquanto estalo — de dor

Tu vais folgando a sorrir!...

E se lembrares-te um dia

Do infeliz, desgraçado

Desculpa-o, que foi ousado...

Perdão te deve pedir!!...