NUMA ILUSTRE ACADEMIA

By Gregório de Matos Guerra

Perguntou-se a um discreto,

qual era a morte tirana:

respondeu, que estar ausente

daquilo, que mais se ama.

Numa ilustre academia,

que com ciências infusas

fizeram as nove Musas,

onde Apolo presidia:

leu o Secretário Admeto,

um problema mui seleto

propôs, para argumentar-se,

e havendo de perguntar-se,

Perguntou-se a um discreto.

Ele, que estava distante,

e não ouvia a proposta,

não deu por então resposta

de Surdo, e não de ignorante:

mas vendo no seu semblante

a academia Sob’rana,

que tinha a desculpa lhana,

lhe advertiram com agrado,

que lhe haviam perguntado:

Qual era a morte tirana.

Ele entonces como um raio

prontamente, e sem detença

tomando vênia, e licença

fez consigo um breve ensaio:

o mais horrível desmaio

que um peito amoroso sente,

é a falta do bem presente:

ficou-lhe a resposta lhana;

e a qual é a morte tirana,

Respondeu, que estar ausente.

Deixou a resposta absorto

a aquele douto congresso,

porque é já provérbio expresso,

que ausente é o mesmo que morto:

eu me persuado, e exorto,

que quem se abrasa, e inflama

de amor na contínua chama,

inda que sinta abrasar-se,

e menos mal, que ausentar-se

Daquilo, que mais se ama.