Numa tarde hibernal

By Juvêncio de Araújo Figueredo

Cor de cimento, o mar! E o céu, cor de cimento!

Mar e céu, céu e mar se confundem na cor

De um túmulo fechado, onde houvesse um clamor

De almas a soluçar, de momento em momento.

E eu, que desejo vê-la, o meu soluço aumento;

E faz-se ave molhada, a minha própria dor,

Longe do manso olhar, do místico esplendor

Dos seus olhos que são todo o meu pensamento.

E o mar e o céu, assim, continuam fechados...

E a chuva torrencial não cessa, nos telhados,

De correr, de correr, lentas horas a fio.

E cai, continuamente, a chuva impiedosa,

Sem que uma vela surja, a balouçar-se, airosa,

Para me transportar quase morto de frio!