O amor de minha mãe

By Delminda Silveira de Sousa

Eu tive um grande tesouro,

porém bem pouco o fruí,

que o meu escrínio de ouro

perdi-o, meu Deus, perdi!

Era um tesouro celeste...

Sob funéreo cipreste

a terra um dia o guardou.

Porém a joia mais bela

que dentro dele fulgia,

talvez um anjo que a via

a transformasse em estrela

que lá no Céu engastou!

Eu tive um jardim mimoso

de mil florinhas plantado;

não tinham caule espinhoso

as rosas do meu agrado.

Era o meu horto querido

o meu prazer preferido,

a minha consolação:

mas numa hora tristonha

vestiu o Céu negras cores,

e com lufada medonha

a rosa dos meus amores

desfolhou cruel tufão!

Eu tive um sol que brilhava

no céu da minha existência;

a sua luz aclarava

a trilha à minha inocência.

Mas a vida inda me era

como doce primavera

que mil encantos sonhou,

quando nuvem fria, escura,

qual negro manto estendido,

na sua densa negrura

meu sol formoso e querido

todo p’ra sempre ocultou.

E tudo, tudo perdi!

Nada mais me resta agora!

Vivo em trevas, não sorri

lindo sol da minh’aurora!

Nem já tenho as meigas rosas,

nem mais as joias preciosas

que cingiram o colo meu!

Oh! meu Deus! — se anjo bendito

levou à Mansão ditosa

o meu tesouro infinito,

dá que a minh’alma saudosa

vá encontrá-lo no Céu!

Sim, no Céu; que esta riqueza,

este bem que me fugiu,

dos encantos, a beleza

dessa luz que me sorriu,

a minha estrela de amores,

o aroma das minhas flores,

o conforto à minha dor,

toda essa doce ventura,

sabeis o que foi na terra,

que agora tanta amargura

— tanto pranto e mágoa encerra?

de minha mãe foi o amor!