O amor de minha mãe
Eu tive um grande tesouro,
porém bem pouco o fruí,
que o meu escrínio de ouro
perdi-o, meu Deus, perdi!
Era um tesouro celeste...
Sob funéreo cipreste
a terra um dia o guardou.
Porém a joia mais bela
que dentro dele fulgia,
talvez um anjo que a via
a transformasse em estrela
que lá no Céu engastou!
Eu tive um jardim mimoso
de mil florinhas plantado;
não tinham caule espinhoso
as rosas do meu agrado.
Era o meu horto querido
o meu prazer preferido,
a minha consolação:
mas numa hora tristonha
vestiu o Céu negras cores,
e com lufada medonha
a rosa dos meus amores
desfolhou cruel tufão!
Eu tive um sol que brilhava
no céu da minha existência;
a sua luz aclarava
a trilha à minha inocência.
Mas a vida inda me era
como doce primavera
que mil encantos sonhou,
quando nuvem fria, escura,
qual negro manto estendido,
na sua densa negrura
meu sol formoso e querido
todo p’ra sempre ocultou.
E tudo, tudo perdi!
Nada mais me resta agora!
Vivo em trevas, não sorri
lindo sol da minh’aurora!
Nem já tenho as meigas rosas,
nem mais as joias preciosas
que cingiram o colo meu!
Oh! meu Deus! — se anjo bendito
levou à Mansão ditosa
o meu tesouro infinito,
dá que a minh’alma saudosa
vá encontrá-lo no Céu!
Sim, no Céu; que esta riqueza,
este bem que me fugiu,
dos encantos, a beleza
dessa luz que me sorriu,
a minha estrela de amores,
o aroma das minhas flores,
o conforto à minha dor,
toda essa doce ventura,
sabeis o que foi na terra,
que agora tanta amargura
— tanto pranto e mágoa encerra?
de minha mãe foi o amor!