O AVARENTO

By José Joaquim Correia de Almeida

Teu coração foi rendido

Ao assalto da avareza;

Do contágio de tal vício

Tua alma não ’stá ilesa.

Os mais ignóbeis fatos

Tu, escravo da Mamona,

Praticas obedecendo

À tua senhora ou dona.

Teu proceder tem o selo

Da ambição que te devora;

És miserável por dentro,

És miserável por fora.

Num coração carcomido

Pela fome de ganância,

A nobreza das ações

Não fixará sua estância.

Compadeço-me de ti,

Não, gozas de liberdade;

Tua senhora te aço ita

Sem amor nem piedade.

Porque não gastes não tocas

No manjar, nesta bebida;

Ao mau suplício de Tântalo

Estás conde nado em vida.

Teu vestuário ensebado,

Pano grosso de ruim teia,

Declara guerra aos narizes,

Cheira a morrão de candeia.

De canjica te alimentas,

Fazendo prato de um caco;

Os cinco dedos da mão

São teu lenço de tabaco.

De um canudo de taquara,

Que chamam taquarapoca,

Fabricaste a vil caneca

Que leva água à tua boca.

De noite deixas aberta

Uma fresta para a rua;

Poupas o lume da vela,

E aproveitas o da lua.

’Stás em perpétua vigília

De sentinela à gaveta;

És qual forçado a galé,

Ou condenado à calceta.

Avarento desgraçado,

És voluntário cativo;

Não vives porque não gozas,

Estás morto estando vivo.