O AVARENTO
Teu coração foi rendido
Ao assalto da avareza;
Do contágio de tal vício
Tua alma não ’stá ilesa.
Os mais ignóbeis fatos
Tu, escravo da Mamona,
Praticas obedecendo
À tua senhora ou dona.
Teu proceder tem o selo
Da ambição que te devora;
És miserável por dentro,
És miserável por fora.
Num coração carcomido
Pela fome de ganância,
A nobreza das ações
Não fixará sua estância.
Compadeço-me de ti,
Não, gozas de liberdade;
Tua senhora te aço ita
Sem amor nem piedade.
Porque não gastes não tocas
No manjar, nesta bebida;
Ao mau suplício de Tântalo
Estás conde nado em vida.
Teu vestuário ensebado,
Pano grosso de ruim teia,
Declara guerra aos narizes,
Cheira a morrão de candeia.
De canjica te alimentas,
Fazendo prato de um caco;
Os cinco dedos da mão
São teu lenço de tabaco.
De um canudo de taquara,
Que chamam taquarapoca,
Fabricaste a vil caneca
Que leva água à tua boca.
De noite deixas aberta
Uma fresta para a rua;
Poupas o lume da vela,
E aproveitas o da lua.
’Stás em perpétua vigília
De sentinela à gaveta;
És qual forçado a galé,
Ou condenado à calceta.
Avarento desgraçado,
És voluntário cativo;
Não vives porque não gozas,
Estás morto estando vivo.