O cão do fidalgo

By João da Cruz e Sousa

Quando eu o vejo no salão radioso,

Cabeça aberta, sacudindo os guisos,

Deitado às vezes nos tapetes lisos,

Como um paxá no harém voluptuoso;

Todo embebido no luar de um gozo

Que vem de azuis e estranhos paraísos,

Como que um brilho especial de risos

Doces, leais, no olhar vitorioso;

Lembro essa triste humanidade, aquela

Que dentro em si traz uivo de procela

Com rugidoras fúrias de trovão.

Pasmo e me assombro da ironia ardente

Porque bem sei que existe muita gente

Menos feliz até do que esse cão.