O CEGO-SURDO-MUDO

By José Joaquim Correia de Almeida

Deparou-se-me um bom modo

de viver sem desavença,

e é que a tudo me acomodo,

pensando como se pensa.

Se algum teimoso me afirma

ser preto o que sei que é branco,

passe por honra da firma,

não ganho nada em ser franco.

Se um escândalo se dera,

e mo perguntam, eu nego;

nesse momento eu já era,

mais do que míope, cego.

Se outro maior se pro pala,

eu não ouço tal absurdo;

quanto mais nele se fala,

cada vez fico mais surdo.

Se, pois, não ouço nem vejo,

também dou parte de mudo;

porque falar não desejo,

nem falta quem fale tudo.