O CERTO FRADE QUE GALANTEANDO HUAS SENHORAS NO CONVENTO DE ODIVELAS, LHES ENTREG...

By Gregório de Matos Guerra

Reverendo Frei Carqueja,

quentárida com cordão,

magano da religião,

e mariola da Igreja:

Frei Sarna, ou Frei Bertoeja,

Frei Pirtigo, que o centeio

moes, e não dás receio,

Frei Burro de Lançamento,

pois que sendo um Frei Jumento,

és um jumento sem freio.

Tu, que nas pardas cavernas

vives de um grosso saial,

és carvoeiro infernal,

pois andas com saco em pernas:

lembram-te aquelas fraternas,

que levaste a teu pesar,

quando a Prelada Bivar

por culpa, que te cavou,

de dia te desfradou

para à noite te expulsar.

Pela dentada, que Adão

deu no vedado fruteiro,

de folhas fez um cueiro,

e cobriu seu cordavão:

a ti o querer ser glutão

de outra maçã reservada,

ao vento te pôs a ossada,

mas com diferença muita,

que se nu te pôs a fruita,

tu não lhe deste a dentada.

De José se diz cad’hora,

que o fez um seno de chapa

deixar pela honra a capa

nas mãos da amante senhora:

tu na mão, que te namora,

por honra, e por pundonor

deixas hábito, e menor,

mas com desigual partido,

que José de acometido,

e tu de acometedor.

Desfradado em conclusão

te vistes em couro puro,

como vinho bem maduro,

sendo, que és um cascarrão:

era pelo alto serão,

quando a gente às adivinhas

viu entre queixas mesquinhas

na varanda um Frade andeiro

saído do Limoeiro

a berrar pelas casinhas.

Como Galeno na praça

apareceste ao luar

pobre, roubado do mar,

que era ver-te um mar de graça:

quando um pasma, e outro embaça;

não me tenham por visão,

frade sou inda em cueiros,

tornei-me aos anos primeiros,

e Bivar foi meu Jordão.

Porque luz se te não manda,

tu por não dar num ferrolho,

dizem, que abriste o teu olho,

que é cancela, que tresanda:

chovias por uma banda,

e por outra trovejavas,

viva tempestade andavas,

porque à comédia assistias,

que era tramóia fingias,

e na verdade o passavas.

Ninguém há, que vitupere

aquele lanço estupendo,

quando o teu pecado vendo

tomaste o teu miserere:

mas é bem, que me exaspere

de ver, que todo o sandeu,

que nos tratos se meteu

de Freiras, logo confessa,

que isso lhe deu na cabeça,

e a ti só no cu te deu.

Dessa hora temerária

ficou a grade de guisa,

que se até ali foi precisa,

desde então foi necessária:

tu andaste como alimária,

mas isso não te desdoura,

porque fiado na coura

da brutesca fradaria

estercaste estrebaria,

o que gostas manjedoura.

Que és frade de habilidade,

dás grandíssima suspeita,

pois deixas câmara feita,

o que foi té agora grade:

tu és um corrente Frade

nos lances de amor, e brio,

pois achou teu desvario

ser melhor, e mais barato,

do que dar o teu retrato,

pôr na grade o teu feitio.

Corrido enfim te ausentaste,

mas obrando ao regatão,

pois levaste um lampião

pela cera, que deixaste:

sujamente te vingaste

Frei Azar, ou Frei Piorno,

e estás com grande sojorno,

e posto muito de perna,

sem veres, que essa lanterna

te deram, por dar-te um corno.

O com que perco o sentido,

é ver, que em tão sujo tope

levando a Freira o xarope

tu ficaste o escorrido:

na câmara estás provido

e de ruibarbo com capa,

mas lembro-te Frei Jalapa,

que por cagar no sagrado

o cu tens excomungado,

se não recorres ao Papa.

Muito em teus negócios medras

com furor, que te destampa,

pois sendo um louco de trampa,

te tem por louco de pedras:

é muito, que não desmedras,

vendo-te trapo, e farrapo,

antes co’a Freira no papo,

como no sentido a tinhas,

parece, que a vê-la vinhas,

pois vinhas com todo o trapo.

Tu és magano de lampa,

Bivar é Freira travessa,

a Freira pregou-te a peça,

mas tu armaste-lhe a trampa:

se o teu cagar nunca escampa,

nunca estie o seu capricho,

e pois ta pregou, Frei Mixo,

chame-se por todo o mapa

ela travessa de chapa,

e tu magano de esguicho.