O COLCHÃO DENTRO DO TOUCADO
Chaves na mão, melena desgrenhada,
Batendo o pé na casa, a mãe ordena,
Que o furtado colchão, fofo, e de pena,
A filha o ponha ali, ou a criada:
A filha, moça esbelta, e aparaltada,
Lhe diz co’a doce voz, que o ar serena:
“Sumiu-se-lhe um colchão, é forte pena;
Olhe não fique a casa arruinada:”
“Tu respondes assim? tu zombas d’isto?
Tu cuidas que por ter pai embarcado.
Já a mãe não tem mãos?” E dizendo isto,
Arremete-lhe à cara e ao penteado;
Eis senão quando (caso nunca visto!)
Sai-lhe o colchão de dentro do toucado.