O CRISMA DA MONARQUIA
Se é justo que a monarquia
tenha o poder de crismar,
inda assim a regalia
obriga-me a protestar.
Quando fora tolerável
dar o crisma um nome bom
é tanto mais detestável
dar nome sem tom nem som.
A ousadia me relevem
agaloados tafuis,
que em dias de gala devem
meter-se em calças azuis.
Os que somos plebeus, baixos,
peões por irmos a pé,
respeitamos nos despachos
a suprema boa-fé.
Mas quiséramos que fosse
o nome que traz brasão
mais eufônico, mais doce,
menos exposto à irrisão.
Há homem simples que tome
como graça especial
no profano crisma o nome
de asqueroso irracional!
Em zurzi-lo não me ocupo,
tal bicho não me distrai;
embora digno de apupo,
continue como vai.
Confesso-me ambicioso
só de expor à luz do sol
fino metal precioso,
purificado em crisol.
Quando garboso advogava
o interesse popular
Torres-Homem se chamava
graúdo parlamentar.
Tão expressivo apelido
de um varão de alto saber
até as nuvens erguido
devia permanecer.
Porém qual!... Deus nos acuda
Mudam-se os tempos, e (oh dor!)
o nome também se muda
ao eloquente orador!
Vós, gramáticos defuntos,
não vistes o que hoje vi!
Do us diminutivos juntos,
qual português, qual tupi!
Inho, até qui desinência,
já se antepõe a mirim
significando a eminência
do senhor de Inhomirim!
Se solteirinho, isolado
a grandeza diminui,
diminutivo casado
a grandeza não exclui?!
o tempo calamitoso
já se foi, bem longe vai
o capricho sanguinoso
da guerra do Paraguai.
Tanta ferida profunda
até hoje inda nos dó
porém lembrança jocunda
conservamos de um herói.
Houve muito bom soldado,
nas falanges do Brasil;
mas o Osório denodado
valeu-nos por muitos mil.
De Osório o nome se esconde,
por Decreto Imperial;
é Barão, depois Visconde,
e por fim Marquês de Erval!
Erval para o legendário!
Eu vos peço, vós me dais,
livreiros, o dicionário
de Constâncio ou de Morais.
Recorro à etimologia,
leio, estudo, e desta vez
pasmo, como pasmaria
um mestre de português!
Para aumentar minha cisma
(na corte há cousas assim!)
a Câmara também crisma
o seu largo do Capim!
Do grão General Osório
o nome que se escondeu,
posto em letreiro irrisório
ao dito largo se deu!
Se o país todo proclama
esse invicto general
quem as glórias pátrias ama
não repele escárnio tal!...
Nemo deve!... A Edilidade
teve esta razão maior:
o bem virá da ruindade,
que quanto pior, melhor!