O DUELO, ODE

By José Joaquim Correia de Almeida

Nas horrorosas cenas que ensanguentam

As páginas da história

Enxerga-se a medonha catadura

Do nefando duelo.

Desar da natureza postergada,

Inspiração do inferno,

Este monstro hediondo nos coloca

Muito abaixo dos brutos.

Sim; que os brutos ferozes não exercem

Enfurecida raiva

Senão contra animal reconhecido

De outra espécie diversa.

Entretanto, dirão, na culta Europa,

Na Europa inteligente

Afrontas de família, questões de honra,

Decidem-se à pistola.

Se a maldizente língua detratora

Amargo fel destila

Para tisnar a cândida virtude

Da pudica donzela;

Se ao público empregado, de conduta

Não mesclada de opróbrio,

Na prática do ofício melindroso

Sem razão acusaram

Trêmula mão arroja às ímpias faces,

Aos lábios da calúnia

Essa luva funesta, esse evidente

Sinal de desafio.

E eleitos dous padrinhos, escolhido

Lugar, e hora marcada,

Ofensor e ofendido se apresentam

Dispostos ao combate.

Contados vinte passos de distância,

Armas engatilharam

Ambos fizeram fogo, e pelo menos

Algum caiu ferido.

Eis como recupera-se o precioso

Enxovalhado crédito;

Eis como se restauram foros de honra

De cumpridos deveres!

Irresistível força de argumento,

Brilhante silogismo,

Exato nas premissas, exatíssimo

Na final consequência!

E que ousado atrevido tentaria

Fazer objeção forte

À vigorosa lógica de sangue

Da cultivada Europa?...

Quem?... Eu to digo, o mínimo? prosélito

Desse livro sublime,

Divina coleção de santas máximas

Evangelho sagrado.