O duque

By João da Cruz e Sousa

Quando o duque voltava da caçada

Alegre num clarim d’aço vibrante

De alacridade moça e evigorada

Dum ruidoso e trêfego estudante.

Quando ele vinha com seu ar bizarro

De atravessar os vales e as colinas,

Sadio aspecto fresco como um jarro

Cheio de leite às horas matutinas.

Em toda a aristocrática varanda

Alta e vistosa, ampla, aberta em janelas,

Ele vibrava, de uma e outra banda,

Canções de amor, nostálgicas e belas.

Do salão nobre entre tapeçarias

De Gobelins, riquíssimas e raras,

Iam vibrando aladas harmonias

Da sua voz, esplêndidas e claras.

Todas as fluidas, leves, calmas, frescas

Manhãs azuis, serenas e formosas,

Loura mulher das regiões tudescas

O seu bom dia era mandar-lhe roses.

Floria, é certo, em grande amor, floria

Gerado pelo eflúvio dessas flores,

Pois quando o duque não as recebia

Era o mais infeliz dos caçadores.

Tão doce amor lembrava aquelas lendas

Dos medievais castelos esquecidos,

Quando visões de nuvens e de rendas

Apareciam nos balcões floridos.

A caça, a caça, eternamente a caça!

Quanto melhor, mais fácil não lhe fora

A conquista das aves do que a graça

De conquistar essa beleza loura!

Para possuí-la como noiva amada,

Aceso há muito nas paixões insanas,

Arrostaria a caça mais ousada

Dos javalis nas selvas africanas.

E sempre as lindas rosas matutinas

Vinham-no perfumar todos os dias,

Quando saltava aos vales e as colinas,

Bizarro e são, dentre as tapeçarias.

Tempos passaram sobre tais amores!

Mas depois de casado fez surpresa

Saber que o duque, o rei dos caçadores,

Não tinha o mesmo amor pela duquesa.