O FIDÉLIS DO PARAIBUNA
Cada vez, meu bom Correia,
Que vossos escritos leio,
Eu sinto minha alma cheia
De gozo, de doce enleio,
Qual sente o apaixonado
Ouvindo o objeto amado.
E tal é o meu empenho
De os ler, de os apreciar,
Que assim mesmo sem engenho
Me ponho a metrificar,
Com atenção toda posta
Na beleza da resposta.
Por modéstia em grau subido
Faltastes à sã verdade,
Pois um vate conhecido,
Como so is, pas sar não há de
Por opaca lamparina,
Quando é clarão que ilumina.
Se eu tivesse o dom, o estro
Do sábio vate Mineiro;
Se não fosse só por sestro
Que faço verso grosseiro,
Cantaria alto louvor
De tão exímio escritor.
Mas que importa que eu não possa
Tecer capela de louro
Com que enfeite a fronte vossa?
Exarado em letras de ouro
Já não está por acaso
Vosso nome no Parnaso?
Esses volumes que correm
De belezas recheados
São glórias que nunca morrem,
São soberbos atestados,
Que exibo como verdade
De vossa imortalidade.
Não é preciso que o vate
Cante o feito glorioso
De um arriscado combate,
Nem que o incenso cheiroso
Queime a Vênus, queime a Flora
Para ter lira sonora.
A beleza da poesia,
O estro dom natural,
Sobressai e se aprecia
No assunto mais trivial,
Se porventura o sujeito
Tem para a cousa algum jeito.
De Ovídio tristonho canto,
Bela Eneida de Virgílio
Tem primor, tem doce encanto;
Mas não desmerece em brilho
De Fedro a fáb’la picante,
De Horácio a ode bacante.
Bocage que fez proezas,
Tangendo a lira à vontade,
Não encerra mais belezas
Nos sonetos de amizade,
Nas canções do Deus menino,
Que no epigrama ferino.
Portanto, meu bom Correia,
Essa expressão de luzeiro,
Que lancei da pena cheia
Ao sábio vate Mineiro,
Não foi por banalidade,
Foi do que penso a verdade.
Não entrou nas minhas vistas,
Nos versos maus que tracei,
Convosco jogar as cristas,
E nem jamais eu pensei
Cingir louros de vitória,
Ou cantar hinos de glória.
Por nos faltar a pilhéria
De um Barão Kikirik,
Que em linguagem joco-séria
Faz as delícias dali,
Eu meti-me a rabequista
Quando sou raso corista.
Bem conheço e certifico
Que não me sobra miolo;
Mas se aos tombos metrifico,
Ó meu louro intonso Apolo,
É por amar tuas filhas,
Embora passe a Cacilhas.
Também quero acomodar-me,
Ó sábio mestre latino,
Convosco conciliar-me,
Visto que não descombino
Da verdade que repousa,
E foi dita em muita cousa.
Grato foi-me, e lisonjeiro,
Ouvir a boa expressão
De polido cavalheiro,
Que destes por atenção,
Como leal contendor
Ao vosso rude agressor.
A minha musa humilhada
Ao peso de honra tamanha,
Se viu por terra lançada,
Se viu em papos de aranha,
Sem que pudesse atinar
Com resposta que vos dar.
“Mas dormindo sobre o caso
Assentei que se emudeço,
Vou dar motivo, dar azo
De dizerem que pareço
O ginete nas entradas,
Sendeiro nas retiradas.”
Assim pois inda aventuro
Meia dúzia de palavras,
Dos sofismas não procuro
Nas inesgotáveis lavras
Motivo que encordoado
Vos ponha, Correia amado.
Fugistes, meu reverendo,
Das teses que são propostas;
Já pulando, já correndo,
Virastes traseiras costas
Aos frisantes argumentos,
Que dei como fundamentos.
Se de baldas só tratastes,
Como foi que a natureza
Para a questão invocastes,
Afirmando com certeza
Que o cão destinado à caça
Tira os instintos da raça?
Falando do chicanista
Dissestes que o maganão
Saíra assim demandista
Por causa da geração,
Pois o pai por igual sestro
Perdeu os bens num sequestro.
“É da natureza ou sorte
A propensão do sujeito,
E seria asneira forte
Querer-lhe dar outro jeito.”
Eis aqui vossa expressão
No começo da questão.
Eu porém não combinei
Nesse modo de pensar;
Pedi vista, articulei,
E pus-me a contrariar,
Certo de que se tratava
De um ponto que eu contestava.
Muito aresto ruminei,
Boas provas coligi,
Aos Reiníc’las consultei
E por fim me convenci
Que a sentença em conclusão
Não teria apelação.
Mas antes que os julgadores
Dos apanhados nos autos
Fossem a seus assessores
(Sendo leigos, menos cautos)
Para ouvir a opinião
Do desfecho da questão,
Eis que surgistes de novo
Os artigos confessando
Deste pleito que vos movo;
Mas ainda argumentando
Com velha prova e razão,
Pedistes reconvenção.
Vou dar-vos, porque já disse
Que não quero jogar cristas,
Pois seria uma tolice
Pagar ao escrivão as vistas,
Ao meirinho boas lascas,
E da ostra termos as cascas.
Mas para a acomodação
Ter vantagem, ser igual,
Farei a contestação
Do que se disse afinal,
Nos ajustes entraremos,
E depois nos calaremos.
Devo notar de passagem
Que não mais repetirei,
Ficando postas à margem,
Vocações de que tratei,
Já que rendeis ovação
À força da educação.
Também de boa vontade
Deixarei cousas sem vida,
Visto como a paridade
Foi julgada mal cabida;
Tratarei em resultado
Dos fatos apresentados.
“Mas do Mouro que é má rês,
Dissestes, voltando à carga,
Bom cristão nunca se fez;”
Eu sou leigo no Larraga,
Confesso, mas assim mesmo
Vou falar, embora a esmo.
No Flos-Sanctorum hei visto
Centenas de conversões
De infiéis que a lei de Cristo
Meteram nos corações,
Desprezando o paganismo
E suplicando o batismo.
Bárbara, filha de Mouro
Pela c’roa do martírio
Trocou diadema d’ouro,
E virgem pura no empíreo
Entrou inda juvenil
No número de outras mil.
Longuinho do Cristo santo
No peito a lança cravou,
Mas Longuinho verteu pranto
E arrependido ficou,
Sendo ao depois perdoado,
E mesmo santificado.
Era infiel São Mateus,
Porém à voz do Divino
Foi seguindo os passos seus,
Foi seguindo o seu destino,
Sem das riquezas curar
Que ajuntou a trabalhar.
Foi a soberba Judeia
Por Cristo toda abalada,
À sua voz Galileia
Não foi menos agitada,
Enfim do povo judeu
Ele a muitos converteu.
Mas ah! perdão, meu Correia,
Não havia eu refletido,
Que estou em seara alheia,
Feito grande entremetido;
Pelo vosso breviário
Perdoai-me que estou vário.
Na Dama de Monsoreau
O caso lestes como eu,
Que Dumas tão bem pintou,
Do bom frade Borromeu,
Que contra Henrique terceiro
Se revoltou traiçoeiro.
Mas que vale um fingimento
Da corrupção do passado,
Que se deu no tal convento,
Onde entrava disfarçado
Esse Anjou de má tenção
Para destronar o irmão?
Esse padre Gorenflot
Por ser grande comilão,
Deixou furtar-lhe Chicot
O capuz e o sermão,
E descobrir a tratada
Que estava tão bem armada.
Mas uma rica abadia
Teve o bom do reverendo
Para viver à vadia;
Os bons petiscos comendo;
Coitado! bem lhe custou
Pois que o Panurge o esfregou...
Mas a propósito, amigo,
Não era bobo o Chicot?
Porém não serviu de abrigo,
Engodando Gorenflot,
Ao rei que estava perdido,
Se não fosse advertido?
Eis um valente argumento,
Que o emprego do sujeito
Não vai do entendimento,
O bobo aqui ficou feito
Mais sábio que os cardeais,
Mais forte que os generais.
Na gramática latina
Que ensinais (mas não a esmo),
Sustentais como doutrina
Que um verbo é sempre o mesmo,
Quer venha na voz ativa,
Quer venha na voz passiva.
Permiti-me que proteste
Contra uma tal asserção,
Assim como que conteste
Que na conta do sermão
Não deixareis que o passivo
Se ponha em lugar do ativo.
Se censurais, como crítico,
Que eu possa crer na firmeza
Do prosélito político,
Como mostrais estranheza
Que o assassino, que o malvado
Se torne depois honrado?
É querer fazer de feito
Dos mortais a condição;
É querer que seja peito,
Não dar ingresso à razão
Do homem no sentimento,
Descrer do arrependimento.
Esse pau de laranjeira
Que tratais de vilão ruim,
Para ser nobre à ligeira
Gasta dinheiro sem fim
Nas obras de caridade,
Nos hospitais da cidade.
No latino magistério
Que ocupais honradamente,
Vós reconheceis o império
Da propensão dessa gente,
Da qual a mor parte estuda
Sem que o talento lhe acuda.
Mas pergunto: o tal mocinho
Que seria menos mau
Se por acaso o paizinho
Tivesse-o lavrando pau,
Não vai ter à faculdade,
Não se forma, na verdade?
Sim, senhor, e deputado
Muita vez o doutor sai,
E se fica bem calado
Na assembleia, pra onde vai,
Dá voto consciencioso
Que faz o país ditoso.
Se dos bichos se tratasse
Do Souto, grande cambista,
Eu talvez que me calasse,
Porque esses tais são da lista
Dos que nos circos romanos
Papavam entes humanos;
Mas de Labarrère os tais
Que ela mostra no teatro,
Panteras, leões coos quais
Faz ela o diabo a quatro,
Até vós, Correia amigo,
Podeis brincar sem perigo.
Porque domados estão
De forma que a sobredita
Na boca até do leão
Mete a cabeça bonita;
Fá-lo no chão se deitar,
Se assenta em cima a brincar.
Esse turco de borracha
De que falei, não é fábula
Daquelas que vos encaixa
O estudante que é cábula,
Para fugir da ferina
Endiabrada sabatina.
Eu já o vi, e por gente
Só pude o considerar,
Depois de o ter frente a frente
E de muito o examinar;
Se o vísseis, meu reverendo,
Ficaríeis vos benzendo.
O elastério da goma
Vem de sua natureza,
Mas sem preparo não toma
Essa forma, essa moleza
Que não tem o pau que a dá
Lá nas matas do Pará.
Assim ao homem sucede,
Pois embora tenha engenho,
Fica bruto se não pede
Que o ensinem, com empenho;
Tem o gérmen do saber,
Não sabe sem aprender.
Muitos outros argumentos
Eu poderia trazer;
Mais uma grosa de exemplos
Inda podia escrever,
Só com o fim de provar
As teses que quis firmar.
Mas deixo de boa mente
De pôr mais no tal libelo,
Pois entendo que somente
Nos resta pagar o selo,
E ser conclusa a pendência
Para a primeira audiência.
Na minha refutação
Acha-se já declarado,
Que em parte tínheis razão,
Ó meu Correia prezado;
E para prova repito
O que ali havia dito:
É verdade que a natura
Influi muito em qualquer cujo,
Assim como que a finura
Em o olfato do sabujo
Quase sempre vem da raça
Destinada a certa caça.
Portanto assim vós como eu
Ambos tivemos razão
Naquilo que se escreveu,
Dai-me pois a vossa mão,
Quero apertá-la e beijar,
E a paz convosco firmar.
Sinto porém não poder
Um copo de vinho tinto
Junto convosco beber
D’armazém d’Antônio Pinto,
Ou do Zaine Italiano
Que é dono do hotel Romano.
O convênio não repilo,
Nem vos recuso vantagem,
Antes eu quero segui-lo,
Rendendo pura homenagem
À seguinte consequência,
Que finaliza a pendência:
“Tem cada qual o seu jeito,
Seu talento especial,
E o mundo não vai direito,
Ou antes vai muito mal,
Se as propensões deslocadas
São menos aproveitadas.”
Se cada um se desvia
Dos encargos que tomou,
Se o direito como guia
O torto não nivelou,
Se a santa religião
Não refreia o coração.