O FIDÉLIS DO PARAIBUNA

By José Joaquim Correia de Almeida

Cada vez, meu bom Correia,

Que vossos escritos leio,

Eu sinto minha alma cheia

De gozo, de doce enleio,

Qual sente o apaixonado

Ouvindo o objeto amado.

E tal é o meu empenho

De os ler, de os apreciar,

Que assim mesmo sem engenho

Me ponho a metrificar,

Com atenção toda posta

Na beleza da resposta.

Por modéstia em grau subido

Faltastes à sã verdade,

Pois um vate conhecido,

Como so is, pas sar não há de

Por opaca lamparina,

Quando é clarão que ilumina.

Se eu tivesse o dom, o estro

Do sábio vate Mineiro;

Se não fosse só por sestro

Que faço verso grosseiro,

Cantaria alto louvor

De tão exímio escritor.

Mas que importa que eu não possa

Tecer capela de louro

Com que enfeite a fronte vossa?

Exarado em letras de ouro

Já não está por acaso

Vosso nome no Parnaso?

Esses volumes que correm

De belezas recheados

São glórias que nunca morrem,

São soberbos atestados,

Que exibo como verdade

De vossa imortalidade.

Não é preciso que o vate

Cante o feito glorioso

De um arriscado combate,

Nem que o incenso cheiroso

Queime a Vênus, queime a Flora

Para ter lira sonora.

A beleza da poesia,

O estro dom natural,

Sobressai e se aprecia

No assunto mais trivial,

Se porventura o sujeito

Tem para a cousa algum jeito.

De Ovídio tristonho canto,

Bela Eneida de Virgílio

Tem primor, tem doce encanto;

Mas não desmerece em brilho

De Fedro a fáb’la picante,

De Horácio a ode bacante.

Bocage que fez proezas,

Tangendo a lira à vontade,

Não encerra mais belezas

Nos sonetos de amizade,

Nas canções do Deus menino,

Que no epigrama ferino.

Portanto, meu bom Correia,

Essa expressão de luzeiro,

Que lancei da pena cheia

Ao sábio vate Mineiro,

Não foi por banalidade,

Foi do que penso a verdade.

Não entrou nas minhas vistas,

Nos versos maus que tracei,

Convosco jogar as cristas,

E nem jamais eu pensei

Cingir louros de vitória,

Ou cantar hinos de glória.

Por nos faltar a pilhéria

De um Barão Kikirik,

Que em linguagem joco-séria

Faz as delícias dali,

Eu meti-me a rabequista

Quando sou raso corista.

Bem conheço e certifico

Que não me sobra miolo;

Mas se aos tombos metrifico,

Ó meu louro intonso Apolo,

É por amar tuas filhas,

Embora passe a Cacilhas.

Também quero acomodar-me,

Ó sábio mestre latino,

Convosco conciliar-me,

Visto que não descombino

Da verdade que repousa,

E foi dita em muita cousa.

Grato foi-me, e lisonjeiro,

Ouvir a boa expressão

De polido cavalheiro,

Que destes por atenção,

Como leal contendor

Ao vosso rude agressor.

A minha musa humilhada

Ao peso de honra tamanha,

Se viu por terra lançada,

Se viu em papos de aranha,

Sem que pudesse atinar

Com resposta que vos dar.

“Mas dormindo sobre o caso

Assentei que se emudeço,

Vou dar motivo, dar azo

De dizerem que pareço

O ginete nas entradas,

Sendeiro nas retiradas.”

Assim pois inda aventuro

Meia dúzia de palavras,

Dos sofismas não procuro

Nas inesgotáveis lavras

Motivo que encordoado

Vos ponha, Correia amado.

Fugistes, meu reverendo,

Das teses que são propostas;

Já pulando, já correndo,

Virastes traseiras costas

Aos frisantes argumentos,

Que dei como fundamentos.

Se de baldas só tratastes,

Como foi que a natureza

Para a questão invocastes,

Afirmando com certeza

Que o cão destinado à caça

Tira os instintos da raça?

Falando do chicanista

Dissestes que o maganão

Saíra assim demandista

Por causa da geração,

Pois o pai por igual sestro

Perdeu os bens num sequestro.

“É da natureza ou sorte

A propensão do sujeito,

E seria asneira forte

Querer-lhe dar outro jeito.”

Eis aqui vossa expressão

No começo da questão.

Eu porém não combinei

Nesse modo de pensar;

Pedi vista, articulei,

E pus-me a contrariar,

Certo de que se tratava

De um ponto que eu contestava.

Muito aresto ruminei,

Boas provas coligi,

Aos Reiníc’las consultei

E por fim me convenci

Que a sentença em conclusão

Não teria apelação.

Mas antes que os julgadores

Dos apanhados nos autos

Fossem a seus assessores

(Sendo leigos, menos cautos)

Para ouvir a opinião

Do desfecho da questão,

Eis que surgistes de novo

Os artigos confessando

Deste pleito que vos movo;

Mas ainda argumentando

Com velha prova e razão,

Pedistes reconvenção.

Vou dar-vos, porque já disse

Que não quero jogar cristas,

Pois seria uma tolice

Pagar ao escrivão as vistas,

Ao meirinho boas lascas,

E da ostra termos as cascas.

Mas para a acomodação

Ter vantagem, ser igual,

Farei a contestação

Do que se disse afinal,

Nos ajustes entraremos,

E depois nos calaremos.

Devo notar de passagem

Que não mais repetirei,

Ficando postas à margem,

Vocações de que tratei,

Já que rendeis ovação

À força da educação.

Também de boa vontade

Deixarei cousas sem vida,

Visto como a paridade

Foi julgada mal cabida;

Tratarei em resultado

Dos fatos apresentados.

“Mas do Mouro que é má rês,

Dissestes, voltando à carga,

Bom cristão nunca se fez;”

Eu sou leigo no Larraga,

Confesso, mas assim mesmo

Vou falar, embora a esmo.

No Flos-Sanctorum hei visto

Centenas de conversões

De infiéis que a lei de Cristo

Meteram nos corações,

Desprezando o paganismo

E suplicando o batismo.

Bárbara, filha de Mouro

Pela c’roa do martírio

Trocou diadema d’ouro,

E virgem pura no empíreo

Entrou inda juvenil

No número de outras mil.

Longuinho do Cristo santo

No peito a lança cravou,

Mas Longuinho verteu pranto

E arrependido ficou,

Sendo ao depois perdoado,

E mesmo santificado.

Era infiel São Mateus,

Porém à voz do Divino

Foi seguindo os passos seus,

Foi seguindo o seu destino,

Sem das riquezas curar

Que ajuntou a trabalhar.

Foi a soberba Judeia

Por Cristo toda abalada,

À sua voz Galileia

Não foi menos agitada,

Enfim do povo judeu

Ele a muitos converteu.

Mas ah! perdão, meu Correia,

Não havia eu refletido,

Que estou em seara alheia,

Feito grande entremetido;

Pelo vosso breviário

Perdoai-me que estou vário.

Na Dama de Monsoreau

O caso lestes como eu,

Que Dumas tão bem pintou,

Do bom frade Borromeu,

Que contra Henrique terceiro

Se revoltou traiçoeiro.

Mas que vale um fingimento

Da corrupção do passado,

Que se deu no tal convento,

Onde entrava disfarçado

Esse Anjou de má tenção

Para destronar o irmão?

Esse padre Gorenflot

Por ser grande comilão,

Deixou furtar-lhe Chicot

O capuz e o sermão,

E descobrir a tratada

Que estava tão bem armada.

Mas uma rica abadia

Teve o bom do reverendo

Para viver à vadia;

Os bons petiscos comendo;

Coitado! bem lhe custou

Pois que o Panurge o esfregou...

Mas a propósito, amigo,

Não era bobo o Chicot?

Porém não serviu de abrigo,

Engodando Gorenflot,

Ao rei que estava perdido,

Se não fosse advertido?

Eis um valente argumento,

Que o emprego do sujeito

Não vai do entendimento,

O bobo aqui ficou feito

Mais sábio que os cardeais,

Mais forte que os generais.

Na gramática latina

Que ensinais (mas não a esmo),

Sustentais como doutrina

Que um verbo é sempre o mesmo,

Quer venha na voz ativa,

Quer venha na voz passiva.

Permiti-me que proteste

Contra uma tal asserção,

Assim como que conteste

Que na conta do sermão

Não deixareis que o passivo

Se ponha em lugar do ativo.

Se censurais, como crítico,

Que eu possa crer na firmeza

Do prosélito político,

Como mostrais estranheza

Que o assassino, que o malvado

Se torne depois honrado?

É querer fazer de feito

Dos mortais a condição;

É querer que seja peito,

Não dar ingresso à razão

Do homem no sentimento,

Descrer do arrependimento.

Esse pau de laranjeira

Que tratais de vilão ruim,

Para ser nobre à ligeira

Gasta dinheiro sem fim

Nas obras de caridade,

Nos hospitais da cidade.

No latino magistério

Que ocupais honradamente,

Vós reconheceis o império

Da propensão dessa gente,

Da qual a mor parte estuda

Sem que o talento lhe acuda.

Mas pergunto: o tal mocinho

Que seria menos mau

Se por acaso o paizinho

Tivesse-o lavrando pau,

Não vai ter à faculdade,

Não se forma, na verdade?

Sim, senhor, e deputado

Muita vez o doutor sai,

E se fica bem calado

Na assembleia, pra onde vai,

Dá voto consciencioso

Que faz o país ditoso.

Se dos bichos se tratasse

Do Souto, grande cambista,

Eu talvez que me calasse,

Porque esses tais são da lista

Dos que nos circos romanos

Papavam entes humanos;

Mas de Labarrère os tais

Que ela mostra no teatro,

Panteras, leões coos quais

Faz ela o diabo a quatro,

Até vós, Correia amigo,

Podeis brincar sem perigo.

Porque domados estão

De forma que a sobredita

Na boca até do leão

Mete a cabeça bonita;

Fá-lo no chão se deitar,

Se assenta em cima a brincar.

Esse turco de borracha

De que falei, não é fábula

Daquelas que vos encaixa

O estudante que é cábula,

Para fugir da ferina

Endiabrada sabatina.

Eu já o vi, e por gente

Só pude o considerar,

Depois de o ter frente a frente

E de muito o examinar;

Se o vísseis, meu reverendo,

Ficaríeis vos benzendo.

O elastério da goma

Vem de sua natureza,

Mas sem preparo não toma

Essa forma, essa moleza

Que não tem o pau que a dá

Lá nas matas do Pará.

Assim ao homem sucede,

Pois embora tenha engenho,

Fica bruto se não pede

Que o ensinem, com empenho;

Tem o gérmen do saber,

Não sabe sem aprender.

Muitos outros argumentos

Eu poderia trazer;

Mais uma grosa de exemplos

Inda podia escrever,

Só com o fim de provar

As teses que quis firmar.

Mas deixo de boa mente

De pôr mais no tal libelo,

Pois entendo que somente

Nos resta pagar o selo,

E ser conclusa a pendência

Para a primeira audiência.

Na minha refutação

Acha-se já declarado,

Que em parte tínheis razão,

Ó meu Correia prezado;

E para prova repito

O que ali havia dito:

É verdade que a natura

Influi muito em qualquer cujo,

Assim como que a finura

Em o olfato do sabujo

Quase sempre vem da raça

Destinada a certa caça.

Portanto assim vós como eu

Ambos tivemos razão

Naquilo que se escreveu,

Dai-me pois a vossa mão,

Quero apertá-la e beijar,

E a paz convosco firmar.

Sinto porém não poder

Um copo de vinho tinto

Junto convosco beber

D’armazém d’Antônio Pinto,

Ou do Zaine Italiano

Que é dono do hotel Romano.

O convênio não repilo,

Nem vos recuso vantagem,

Antes eu quero segui-lo,

Rendendo pura homenagem

À seguinte consequência,

Que finaliza a pendência:

“Tem cada qual o seu jeito,

Seu talento especial,

E o mundo não vai direito,

Ou antes vai muito mal,

Se as propensões deslocadas

São menos aproveitadas.”

Se cada um se desvia

Dos encargos que tomou,

Se o direito como guia

O torto não nivelou,

Se a santa religião

Não refreia o coração.