O INVEJOSO

By José Joaquim Correia de Almeida

Considero o invejoso desgraçado,

Porque mísero sofre acerbas dores,

Agudas punhaladas, que penetram

O âmago do peito.

A ventura do próximo o atormenta,

O gozo dos amigos o incomoda,

A virtude louvada no vizinho

Seu despeito exaspera.

Morre a cada momento, e se aniquila

Por não ouvir os gabas, que se rendem

Às heroicas virtudes do patrício,

Que soube assinalar-se.

Considero o invejoso desgraçado,

Porque mísero sofre acerbas dores,

Os pesares injustos, que detestam

Os bens da humanidade.

Corta-me o coração a ideia triste,

Que faço do invejoso, quando envesga

Os torvos olhos por não ver de frente

Sublime dote alheio.

Medita, ó invejoso, por um pouco

Na fonte inesgotável de infinitas

Dádivas que o bom Deus franqueia a todos,

A todos que o mereçam.

Se teu irmão recebe auxílio tanto,

É melhor que te alegres bendizendo

A fortuna do irmão, porque a vontade

De Deus o felicita.

Se a vontade de Deus não tem limites,

Se o tesouro das graças não tem fundo,

Sôfrego não te mostres, mas espera

Que Deus tem para dar-te.