O INVEJOSO
Considero o invejoso desgraçado,
Porque mísero sofre acerbas dores,
Agudas punhaladas, que penetram
O âmago do peito.
A ventura do próximo o atormenta,
O gozo dos amigos o incomoda,
A virtude louvada no vizinho
Seu despeito exaspera.
Morre a cada momento, e se aniquila
Por não ouvir os gabas, que se rendem
Às heroicas virtudes do patrício,
Que soube assinalar-se.
Considero o invejoso desgraçado,
Porque mísero sofre acerbas dores,
Os pesares injustos, que detestam
Os bens da humanidade.
Corta-me o coração a ideia triste,
Que faço do invejoso, quando envesga
Os torvos olhos por não ver de frente
Sublime dote alheio.
Medita, ó invejoso, por um pouco
Na fonte inesgotável de infinitas
Dádivas que o bom Deus franqueia a todos,
A todos que o mereçam.
Se teu irmão recebe auxílio tanto,
É melhor que te alegres bendizendo
A fortuna do irmão, porque a vontade
De Deus o felicita.
Se a vontade de Deus não tem limites,
Se o tesouro das graças não tem fundo,
Sôfrego não te mostres, mas espera
Que Deus tem para dar-te.