O JOGO
Sujeita-se quem joga a perdas várias,
Não perde só dinheiro;
Bom conceito, a saúde, o sono perde,
E perder pode o amigo verdadeiro.
É de tudo o que perde entre os azares
O dinheiro por certo
O objeto de menor preço e valia,
Que perde o jogador menos experto.
Nas altas transações de alto comércio
Muito valo conceito;
Falte embora o dinheiro, este não falte,
E tudo seu caminho vai direito.
Saúde não se lega em testamento
E nem se recupera,
Em paradas de banca como o argento
Numa noite, se noutra se perdera.
À escassa luz da mal espevitada
E trêmula candeia,
Não sente o jogador fugir-lhe o sono,
Quando a pinta da carta bruxuleia.
Não volta o sono, qual já tem-se visto
Voltar para a gaveta
Valor, que extraviado se recobra
Por um simples anúncio de gazeta.
Equívoca palavra inofensiva
Ou indiscreto dito
No vil furor do jogo e do interesse
Atira dous amigos num conflito.
E a amizade quebrada é como vidro
Que rara vez se amolda
À primitiva forma, pois que zomba
Do glutinoso grude, mais da solda.
É portanto, conforme hei demonstrado,
O dinheiro por certo
O objeto de menor preço e valia,
Que perde o jogador menos experto.