O JOGO

By José Joaquim Correia de Almeida

Sujeita-se quem joga a perdas várias,

Não perde só dinheiro;

Bom conceito, a saúde, o sono perde,

E perder pode o amigo verdadeiro.

É de tudo o que perde entre os azares

O dinheiro por certo

O objeto de menor preço e valia,

Que perde o jogador menos experto.

Nas altas transações de alto comércio

Muito valo conceito;

Falte embora o dinheiro, este não falte,

E tudo seu caminho vai direito.

Saúde não se lega em testamento

E nem se recupera,

Em paradas de banca como o argento

Numa noite, se noutra se perdera.

À escassa luz da mal espevitada

E trêmula candeia,

Não sente o jogador fugir-lhe o sono,

Quando a pinta da carta bruxuleia.

Não volta o sono, qual já tem-se visto

Voltar para a gaveta

Valor, que extraviado se recobra

Por um simples anúncio de gazeta.

Equívoca palavra inofensiva

Ou indiscreto dito

No vil furor do jogo e do interesse

Atira dous amigos num conflito.

E a amizade quebrada é como vidro

Que rara vez se amolda

À primitiva forma, pois que zomba

Do glutinoso grude, mais da solda.

É portanto, conforme hei demonstrado,

O dinheiro por certo

O objeto de menor preço e valia,

Que perde o jogador menos experto.