O JORNALEIRO

By Laurindo José da Silva Rabelo

Quando ousado o poeta a voz levanta,

Em punho tendo o látego da sátira,

P’ra castigar hipócritas malvados,

É a voz da verdade a voz que soa!

Desmascarar falsários intrigantes,

O vício espezinhar, punir tartufos,

Velhacos suplantar, caluniadores,

São atos que de austera probidade

Louvor sincero e atenção merecem.

Armados pois, de um retorcido relho,

A um negro covil — talvez o inferno —

Por um forte cabresto bem seguro,

Eu vou buscar um torpe Jornaleiro,

Que entre sujos papéis escrevinhados

(Que só p’ra guardanapo têm valia)

Sentado em tamborete junto à banca,

Tendo nas garras de algum corvo a pena,

Baldões, insultos contra a honra atira!

Trazer pretendo o ganhador escriba

Qual jumento manhoso à praça pública

E expô-lo às apuradas dos moleques,

Por quem apedrejado ser devia...

Quem não conhecerá o Miguelista,

Escória dos sandeus de quem eu falo?!...

Chicanista imoral, doutor em nada,

Insosso prosador — alto pedante —

Que estudar foi na estranja — patacoadas

Para dizer-se aqui homem de letras?

Quem não conhecerá o sábio lente,

Que num certo colégio desta Corte

Ciência geográfica ensinava?

Quem não conhecerá — o que na escola,

Onde quer se instruir jovem guerreiro,

Explicando o direito ensina o torto?!...

O homem que insultava adversários,

Alcunhando-os heróis das “vacas gordas”,

E que agora sedento — a grossa teta

Bem agarrado, chupitar procura?!

Homens raros assim todos conhecem!...

Eu não preciso retratá-lo ao vivo,

Descrever-lhe o carão, onde grudados

— Nos olhos — tem pedaços de vidraça,

O corpo infame, o bojo monstruoso,

Qual um balão de fedorentos gases;

E mostrar o letreiro que na fronte

— Em letras garrafais — diz “Ganhador”!

Todos bem sabem de que peça falo:

O trabalho me tira a grande fama

Que por falso, impudente tem ganhado.

Sim, ó grão-Redator (a ti me volvo)

Ao público amador — quero mostrar-te,

P’ra que faça a justiça que mereces...

És qual tarpéia rocha inabalável

Em teu princípio firme-o da calúnia —

És herói dos heróis, quando se trata

De vis aduladores intrigantes!

Um singular portento és na mentira!

Tu és grande! és enorme!! porque arrumas

Patadas, couces mil, no mundo inteiro!!

A natureza pasma ao contemplar-te,

Julgando que não és uma obra sua!

Embasbaca-se o gênio das trapaças

Vendo brilhar o teu saber ingente!

Té o demo — de gosto — pinoteia,

— E berrando que tu, seu protegido,

Que és glória sua comunica à terra!...

E no entanto ninguém teu pai se julga!...

Nem o podem dizer, porque não sabem...

Quem te acendeu nos cascos esses fogos

Que tudo abrasam, sem queimar-te a bola?

Quem és pois? de onde vens? P’ra onde te atiras?!...

És abutre — que mágica do Averno —

Em homem transformou p’ra da calúnia

O instrumento ser aqui na terra?

És do zoilo invejoso a alma errante,

Ou um sopro de negra, imunda harpia?

Onde encontraste o ser? a origem tua?...

Veste por acaso do planeta

Que Vulcano por lei dizem chamar-se?

Onde fixaste o norte de teu rumo,

Ó ente singular, teu paradeiro?

Para onde irás tu, quando partires

Deste imenso teatro em que tens feito

O papel mais infame que se pode?!

Abutre, harpia ou sopro, ou quer que sejas,

— És igual a ti mesmo, a ti somente! —

Cansa-se a pena a enumerar teus feitos!

Envergonha-se aquele que o censura,

Olhando para ti, vendo que és homem,

Na figura somente... em nada mais!...

Imortal, Redator do papelucho

A quem um respeitável nome deste

(Sim que o nome da Pátria, para o probo,

Que não p’ra ti, é nome respeitável),

É tempo de voltar ao antro escuro,

Ou p’ra o lugar — ignoro donde hás vindo!

Já muito por aqui de mal tens feito...

As cinzas venerandas revolveste

De um dos heróis da “Independência” nossa!...

Tua missão cumpriu-se!... é tempo, volta...

Era minha intenção trazer-te à praça;

Mas desisto da empresa!... A puros homens

É um crime mostrar torpes figuras,

Negros quadros, que infâmias representam!

Vai-te! foge daqui! do vate a destra

Só cordas vibra de doiradas liras:

Se indignado empunha o forte relho

Para surrar hipócritas malvados,

Envergonha-se logo do que há feito!

É nobre o fim p’ra que o Poeta nasce;

E não para amansar bestas bravias

Ou corrigir sicários sevandijas!...