O mais belo destino

By Juvêncio de Araújo Figueredo

Maria, o meu vizinho

Acaba de perder o seu meigo filhinho,

O mais humilde cordeirinho

Deste lugar.

Esse humilde cordeirinho

Possuía no olhar uma doçura tal

Que parecia a da água de um riacho

A correr, e a cantar por baixo

De um florido roseiral.

A sua boca recordava

Uma fruta sazonada,

Muito encarnada,

Que ele próprio trincava

De uma maneira singular.

Ao vê-la, os colibris, cansados de voar,

Procuravam-na sugar.

E que mãos tão bonitas tinha ele!

E do seu rosto a pele

Lembrava os jambos quando amadurecem

Sob os raios do sol, que do alto descem

Em centelhas

Como se fossem rútilas abelhas,

Para mordê-los.

E os cabelos

Caiam-lhe na nuca, desmanchados,

Aos punhados...

E quando o vento os sacudia,

A luz clara e puríssima do dia,

A gente se lembrava dos trigais

E do mel das abelhas.

Eram louros assim, e muito mais

Do que as asas

Do canário das telhas

Das nossas casas.

Ao encontrá-lo na estrada, à sombra dos pinheiros,

Onde trinam coleiros,

Eu me sentia bem, diante do seu olhar,

E não tinha vontade

De sair de onde estava, na verdade.

O seu olhar possuía

A doçura da água de um riacho

A correr e a cantar,

Por baixo de um florido roseiral.

Pelas manhãs azuis, muito cedinho,

Ele, o filhinho do meu vizinho,

Era encontrado já pelas coivaras,

A retinir a enxada,

Entre o veludo verde das searas.

Antes, porém, deixava

No balouçante ramo

De uma árvore, na estrada,

Sua gaiola dependurada,

Dentro da qual cantava, prisioneira,

A alma bizarra e alvissareira

De um gaturamo.

E, de guilhada atravessada

Por trás da nuca, e braços em balança,

E balanceios no andar,

Ele, embora criança,

Já sabia guiar uma junta de bois.

Pelos morros acima,

Aos solavancos, entre os matagais,

Guiava os animais

Com o guizo de prata de uma rima

A vibrar-lhe na boca; e com aquele olhar

Que parecia a água de um riacho,

A correr e a cantar

Por baixo de um florido roseiral.

E lhe queriam bem, aqueles bois!

Não tinha, o meu vizinho,

Senão esse filhinho;

O seu melhor amigo, o que já trabalhava,

A cantar satisfeito, para o monte...

Mas, ao descer cansado,

A frente dos seus bois, meteu-se numa fonte,

No caminho,

E, por isso, apanhou uma constipação

Que o levou para a cama, de tal jeito

Que lá está, o cordeirinho,

De mãos postas ao peito,

Todo gelado...

E não lhe bate mais, o coração!

Dessa virgem corola

De açucena, evolou-se o aroma casto...

Sobem a estrada florida do pasto,

Os meninos da escola,

Que, ao saberem da nova,

Vieram buscá-lo para a fria cova...

Vim apenas orar, com piedade e carinho,

Pelo seu pai, o meu vizinho.

Enxuga-lhe, Maria, o amargo pranto,

Com os lenços brancos do teu amor

Tão santo;

E que toda a aflição

Do seu magoado coração

Mergulhe no esplendor

Do teu sublime espírito divino,

Para que ele possa imaginar,

Sem blasfemar,

Que o mais belo destino de um menino,

Com uma Estrela ao norte, está na morte.