O mais belo destino
Maria, o meu vizinho
Acaba de perder o seu meigo filhinho,
O mais humilde cordeirinho
Deste lugar.
Esse humilde cordeirinho
Possuía no olhar uma doçura tal
Que parecia a da água de um riacho
A correr, e a cantar por baixo
De um florido roseiral.
A sua boca recordava
Uma fruta sazonada,
Muito encarnada,
Que ele próprio trincava
De uma maneira singular.
Ao vê-la, os colibris, cansados de voar,
Procuravam-na sugar.
E que mãos tão bonitas tinha ele!
E do seu rosto a pele
Lembrava os jambos quando amadurecem
Sob os raios do sol, que do alto descem
Em centelhas
Como se fossem rútilas abelhas,
Para mordê-los.
E os cabelos
Caiam-lhe na nuca, desmanchados,
Aos punhados...
E quando o vento os sacudia,
A luz clara e puríssima do dia,
A gente se lembrava dos trigais
E do mel das abelhas.
Eram louros assim, e muito mais
Do que as asas
Do canário das telhas
Das nossas casas.
Ao encontrá-lo na estrada, à sombra dos pinheiros,
Onde trinam coleiros,
Eu me sentia bem, diante do seu olhar,
E não tinha vontade
De sair de onde estava, na verdade.
O seu olhar possuía
A doçura da água de um riacho
A correr e a cantar,
Por baixo de um florido roseiral.
Pelas manhãs azuis, muito cedinho,
Ele, o filhinho do meu vizinho,
Era encontrado já pelas coivaras,
A retinir a enxada,
Entre o veludo verde das searas.
Antes, porém, deixava
No balouçante ramo
De uma árvore, na estrada,
Sua gaiola dependurada,
Dentro da qual cantava, prisioneira,
A alma bizarra e alvissareira
De um gaturamo.
E, de guilhada atravessada
Por trás da nuca, e braços em balança,
E balanceios no andar,
Ele, embora criança,
Já sabia guiar uma junta de bois.
Pelos morros acima,
Aos solavancos, entre os matagais,
Guiava os animais
Com o guizo de prata de uma rima
A vibrar-lhe na boca; e com aquele olhar
Que parecia a água de um riacho,
A correr e a cantar
Por baixo de um florido roseiral.
E lhe queriam bem, aqueles bois!
Não tinha, o meu vizinho,
Senão esse filhinho;
O seu melhor amigo, o que já trabalhava,
A cantar satisfeito, para o monte...
Mas, ao descer cansado,
A frente dos seus bois, meteu-se numa fonte,
No caminho,
E, por isso, apanhou uma constipação
Que o levou para a cama, de tal jeito
Que lá está, o cordeirinho,
De mãos postas ao peito,
Todo gelado...
E não lhe bate mais, o coração!
Dessa virgem corola
De açucena, evolou-se o aroma casto...
Sobem a estrada florida do pasto,
Os meninos da escola,
Que, ao saberem da nova,
Vieram buscá-lo para a fria cova...
Vim apenas orar, com piedade e carinho,
Pelo seu pai, o meu vizinho.
Enxuga-lhe, Maria, o amargo pranto,
Com os lenços brancos do teu amor
Tão santo;
E que toda a aflição
Do seu magoado coração
Mergulhe no esplendor
Do teu sublime espírito divino,
Para que ele possa imaginar,
Sem blasfemar,
Que o mais belo destino de um menino,
Com uma Estrela ao norte, está na morte.