O MALUCO E OS CARNÍVOROS
Aí em nossas matas,
Cuja idade por séculos se conta,
O número das patas
Os cálculos maiores sobremonta.
No amplíssimo recinto
Milhões de mil quadrúpedes silvestres,
Guiados pelo instinto,
Não ouvem preleções de sábios mestres.
Anda o queixada junto,
E o bando que ele forma chamam vara;
Fujo de tal assunto,
Nem tomo por assunto a capivara.
Por assaz repulsivo
Ligeiramente e apenas menciono
Esse retrato vivo
Do bicho homem, essoutro bicho mono.
Nem falo da trombuda,
Valente, encouraçada, e voraz anta;
O espesso couro a ajuda,
E por isso a nós outros ela espanta.
Mais ou menos daninho
Irracional muitíssimo se encontra
Nas serras, e tem ninho
Nas grutas, e nos córregos a lontra.
Eles se fazem guerra!
Para que um se alimente, um outro caia,
Apesar de que a terra
É fértil de palmito e sapucaia.
E como há de arrufar-se
Um homem da brutal carnificina?!
Sem motivo ou disfarce
O irmão, seu semelhante ele assassina!
É mais feroz que as feras
O homem quando tem sanguíneo instinto,
Não o igualam panteras,
Nem à vista dele há lobo faminto.
Me veio ao pensamento
Discorrer sobre um pássaro de vulto,
Cuja sorte lamento,
Por vê-lo acometido e morto inulto.
Solitário inocente
Ele vive no chão entre a floresta,
E o lavrador não sente
Estragos desse pássaro na aresta.
Se ele canta, não passa
O canto de uma nota abemolada,
E fazem-lhe negaça
Três bichos, que não são da classe alada.
Homem, onça e cotia,
Carnívoros tão ávidos de suco,
Escutam onde pia
Inofensivo e símplice macuco.
Piam também traidores,
Astutos e peritos no arremedo;
Nada de alheias dores,
Se lhes dá, nem do alheio susto ou medo.
Triste ave se aproxima
Da voz que ela supõe da companheira,
De chofre cai-lhe em cima
Homem, onça, ou cotia traiçoeira.
Oh meu Deus, eu quisera
Que logo que a cotia armasse o laço,
A onça inda mais fera
Lhe pulasse instantânea no cachaço.
Nem eu debalde espero
Que a onça que tais vítimas aguarda,
Do homem, que é mais fero,
Vá sucumbir ao tiro da espingarda.
Quem sabe se aí perto,
Pondo a mira na esquiva jacutinga,
Esse homem tão esperto
Morre ao dente de audaz surucutinga?!