O MALUCO E OS CARNÍVOROS

By José Joaquim Correia de Almeida

Aí em nossas matas,

Cuja idade por séculos se conta,

O número das patas

Os cálculos maiores sobremonta.

No amplíssimo recinto

Milhões de mil quadrúpedes silvestres,

Guiados pelo instinto,

Não ouvem preleções de sábios mestres.

Anda o queixada junto,

E o bando que ele forma chamam vara;

Fujo de tal assunto,

Nem tomo por assunto a capivara.

Por assaz repulsivo

Ligeiramente e apenas menciono

Esse retrato vivo

Do bicho homem, essoutro bicho mono.

Nem falo da trombuda,

Valente, encouraçada, e voraz anta;

O espesso couro a ajuda,

E por isso a nós outros ela espanta.

Mais ou menos daninho

Irracional muitíssimo se encontra

Nas serras, e tem ninho

Nas grutas, e nos córregos a lontra.

Eles se fazem guerra!

Para que um se alimente, um outro caia,

Apesar de que a terra

É fértil de palmito e sapucaia.

E como há de arrufar-se

Um homem da brutal carnificina?!

Sem motivo ou disfarce

O irmão, seu semelhante ele assassina!

É mais feroz que as feras

O homem quando tem sanguíneo instinto,

Não o igualam panteras,

Nem à vista dele há lobo faminto.

Me veio ao pensamento

Discorrer sobre um pássaro de vulto,

Cuja sorte lamento,

Por vê-lo acometido e morto inulto.

Solitário inocente

Ele vive no chão entre a floresta,

E o lavrador não sente

Estragos desse pássaro na aresta.

Se ele canta, não passa

O canto de uma nota abemolada,

E fazem-lhe negaça

Três bichos, que não são da classe alada.

Homem, onça e cotia,

Carnívoros tão ávidos de suco,

Escutam onde pia

Inofensivo e símplice macuco.

Piam também traidores,

Astutos e peritos no arremedo;

Nada de alheias dores,

Se lhes dá, nem do alheio susto ou medo.

Triste ave se aproxima

Da voz que ela supõe da companheira,

De chofre cai-lhe em cima

Homem, onça, ou cotia traiçoeira.

Oh meu Deus, eu quisera

Que logo que a cotia armasse o laço,

A onça inda mais fera

Lhe pulasse instantânea no cachaço.

Nem eu debalde espero

Que a onça que tais vítimas aguarda,

Do homem, que é mais fero,

Vá sucumbir ao tiro da espingarda.

Quem sabe se aí perto,

Pondo a mira na esquiva jacutinga,

Esse homem tão esperto

Morre ao dente de audaz surucutinga?!