O mar

By Delminda Silveira de Sousa

Amo-te, mar, oh! quando em tuas águas quedas

os roxos lírios, as purpúreas rosas

das belas tardes, das auroras ledas

retratas em suas cores primorosas.

Quando tuas ondas mansas, docemente,

vêm segredos contar à branca areia,

a essa hora mística, silente,

em que no Céu desponta a lua cheia.

Amo-te, oh! mar! — se o lindo firmamento

recamado d’estrelas peregrinas,

mostras radiante no polido argênteo

de tuas águas puras, cristalinas.

E quando o sol derrama ao meio-dia

pródiga luz sobre o teu manto ondeante,

amo cada onda tua que irradia

como uma flor de rútilo diamante!

Mas, ah, — se a meiga, fulgurosa onda

da tempestade ao sopro se revolta,

e do batel a âncora que sonda

a profundeza tua, arrasta, solta...

Temo-te, oh! mar! — e de te ver irado

e ouvir o teu rugir feroz, medonho,

no pensamento eu tenho desenhado

horrível quadro de lutuoso sonho!

Penso no rude marinheiro pobre,

— triste marujo que o batel levou; —

penso na choça que a palmeira cobre,

penso naquele que o temor gelou...

A triste esposa que na praia extensa,

ao vir da noite, o pescador espera,

e vendo, oh! mar, tua negrura densa,

sente as angústias que o receio gera...

O pequenino, carinhoso filho

que tens nos braços, da tormenta após,

e olha, chorando, da ardentia o brilho,

Treme se passa uma alcion veloz...

Ai! quanta angústia nestas pobres almas!

que tristes prantos destes seios vêm!...

Meu Deus! Meu Deus! — as belas noites calmas,

que doce encanto, que poesia têm!...

Mas, tu, oh! mar, em vão feroz bravejas,

soberbo alteias tuas doidas vagas!

— Leão de jubas ondeantes sejas

de manso velo a cabritar nas fragas:...

Em vão! — que a Onipotência a branca praia

por limite marcou-te, e, nesse leito,

quebram tuas vagas; lá, na estreita raia

ao Supremo Poder rendes um preito!