O MEL DE MARIBONDOS

By José Joaquim Correia de Almeida

Sempre ao mel se deu apreço,

e era tido por seleto

o que se colhia no Hibla,

e o fabricado no Himeto.

Mil poetas celebraram,

qual néctar, o mel de abelha,

e entre esses panegiristas

Horácio não tem parelha.

Isto foi nos tempos idos,

foi lá pela velha Europa;

outro mel no Brasil temos,

mais digno da mesa e copa.

E os vates nacionalistas,

e semibugres na fala,

ou ignoram tal doçura,

ou não sabem decantá-la!

Um quinau pretendo dar-lhes

porque vão caminho errado;

se minha voz for ouvida,

será o erro desterrado.

Muito elogio ganharam,

após jantares e ceias,

os encerados cortiços,

misteriosas colmeias.

Não são menos engenhosos

os palacetes redondos,

aos quais a plebe dá o nome

de casas de marimbondos.

E o mel tão fino e tão puro

da útil brasília vespa

não terá em seu abono

qualquer frase lisa ou crespa?!

Celebrai, pátrios cantores,

(e este assunto é todo nosso)

o mel que não é de abelha,

e fazei o que eu não posso.

Analisai o processo

da suavíssima cresta,

cujo labor produtivo

em hora fresca não presta.

Pois da vespa a ferroada,

quando o sol está mais quente,

faz que o gênio brasileiro

seja menos indolente.

E o Brasil industrioso,

exportando mel tão raro,

nas cidades Europeias

pode vendê-lo bem caro.