O meu canto

By Delminda Silveira de Sousa

Para abrir o livro vosso

pedi à aurora mimosa

aquelas tintas de rosa

com que abre o dia nos Céus;

mas a aurora desmaiando

acenou-me o lago quedo

que lhe roubara o segredo

dos magos encantos seus.

Veio o sol; pedi-lhe um raio,

um doce raio do Empíreo

com que abrira o casto lírio

tão perfumoso, no val’,

porém o astro vaidoso

prossegue, a flores abrindo,

as frescas rosas tingindo

da viva cor do coral.

Desceu a tarde formosa,

abriram pálidas flores;

pedi à tarde os palores,

aroma às flores gentis;

deu-me a frescura da noite

o grato orvalho do Céu,

e a tarde soltando o véu,

deixou-me aromas sutis.

Para abrir o livro vosso

não tive d’aurora as cores,

nem do sol os esplendores,

só deu-me a tarde o seu pranto!

Assim, na folha tão bela

do vosso livro, Senhor,

só pude deixar a flor

mais desmaiada — o meu canto!