O MEU CORAÇÃO ME DIZ, QUANDO PALPITA EM SEGREDO, QUE CONTIGO, OU TARDE OU CEDO, ...
Meu coração atrevido
Me diz que este amor não cale,
Que me resolva, e que fale,
Porque hei de ser atendido:
Mas como eu já não duvido
De ser em tudo infeliz,
Observar teus olhos quis,
E eles, que me fogem tanto,
Mostram ser mentira quanto
O meu coração me diz.
Da empresa então o retiro,
E com lágrimas lhe disse,
Que por ti nem se lhe ouvisse
Um só ai, um só suspiro:
Fez um voto, mas infiro.
Que o ha de quebrar mui cedo;
Eu creio que só por medo
Os públicos ais evita.
Pois sempre por ti palpita,
Quando palpita em segredo.
Qual mais quer, por qual mais arde
Saber dele um dia quis,
Ser com outrem já feliz,
Ou contigo inda que tarde;
Que oculta a escolha não guarde
E m’a declare em segredo;
Mas ele ocultando o medo,
Que o triste debalde esconde,
Suspirando me responde.
Que contigo, ou (arde ou cedo.
Assim passa um descontente,
Que encheste de paixão forte,
Cuja desgraçada sorte
É chorar inutilmente:
Que eu fosse uma vez contente,
Inda o irado céu não quis,
Pôs-me a marca de infeliz
A minha estreita traidora,
E em tempo nenhum, já agora
Hei de vir a ser feliz.