O MEU IDEAL

By Gustavo de Paula Teixeira

Quando a tarde com o hálito fumoso

Estende pelos vales e montanhas

Um turbilhão de túnicas estranhas,

De clâmides de tule vaporoso;

E vão fluindo as opalinas fontes

Do ventre mastodôntico dos montes,

Num soluçar de límpidos violinos;

E em coro harpejam as aragens mansas

Como uma chusma de almas de crianças

Murmurando segredos cristalinos;

E no beiral dos ninhos

Gorjeiam passarinhos

Como os doirados sonhos fulgurantes,

Os ninhos virginais

Que passam pelas almas dos amantes

Cantando madrigais:

— Eu vou cismar no artístico terraço,

Sob a vasta agonia do sol posto,

Vendo as nuvens correrem pelo espaço

Como as gotas de pranto por meu rosto!

E penso então na flor dos meus desejos,

Na virgem de contornos de alabastro,

Cujo sorriso é um astro

De célicos lampejos

— Na piedosa Beatriz estremecida

Que há de através dos círculos dantescos

Do torvo inferno trágico da Vida

Num poema de episódios romanescos,

Levar-me, alegre como as borboletas

No matinal bailado,

Por um fofo caminhos de violetas,

À Glória de uma alcova de noivado!

Jamais a vi, mas sei que é bela e casta,

Que hei de adorá-la ardentemente... e basta!

Seu nome? Não o sei! É um sonho ainda!

É uma suave ilusão fascinadora!

Mas sei que é loura e linda, muito linda!

Mas sei que é linda e loura, muito loura!

Tem quinze anos apenas: é uma palma

De quinze rosas cujo olor acalma

Todas as dores. Seu cabelo, solto

Em anéis aromáticos, revolto

Lhe rola pela espádua alabastrina

Donde se evola dos jasmins o cheiro,

E é fino como os fios da neblina

E longo como os ramos de um salgueiro...

A sua voz de lírica ternura

Em que suspira um rouxinol dolente

É melodiosa e cheia de doçura

Como um planger de cítara gemente!

Seus beijos são de mel;

É a mais perfeita criatura humana:

Casta como Susana,

Nobre como Raquel!

A sua boca é o rubor das rosas,

E o róseo coração,

Quente como o verão,

É um escrínio de pedras preciosas!

Tem da açucena a mística pureza,

A candidez de um lírio,

Colo de cisne, gestos de princesa

E a pulcritude das visões do Empíreo.

A redondez das pomas recatadas,

O talhe da cintura de Afrodite

E as régias mãos nevadas

São o último limite

Da perfeição sonhada pela mente

Enfebrecida e ardente

De visionário artista

Que planeja uma rútila conquista!

Corpo de estátua! Joia que irradia!

Urna de essências! Taça de ambrosia!

Hóstia de beijos! Vaso de primores!

Buquê de mimos, de estelares lumes,

De pérolas e flores,

De auroras e perfumes!...

Onde estará aquela que procuro,

Que um dia será minha,

O liz nivoso e puro,

Frágil como a andorinha,

Que embalde chamo, súplice, ajoelhado,

E em cujo seio níveo e perfumado

Como um craveiro em flor;

Repousarei como num céu aberto:

— Qual sôfrego viajor

Que, na aridez de um áspero deserto,

Perseguisse lucífera miragem

— Um enxame de brilhos deslumbrantes! —

E no meio da tórrida paragem

Encontrasse um castelo de diamantes!

Quando verei o arcanjo estremecido

Que o coração espera amargurado,

De lágrimas vestido,

De espinhos coroado!

Ela há de vir, a lúcida quimera...

Guardai, ó Primavera,

Canções e flores para o meu noivado!