O MUSEU DO RIO DE JANEIRO

By José Joaquim Correia de Almeida

Versos de Homero e de Horácio

debalde estou procurando!

Nem da Grécia nem do Lácio

aqui entra contrabando!

E muito bruto se encontra,

cada um de sua casta,

a irara, a cutia, a lontra,

e a jiboia, que se arrasta.

Enfadonho vos parece

se, um por um, especifico

macacos de toda espécie,

desde o orangotango ao mico.

Aumentam a bicharia

bicharocos da Jamaica,

e há bastante poesia

em coleção tão prosaica!

Ver o pato acaçapado,

ou marreco pernicurto,

considero requintado

prazer, a que me não furto.

Observando tanta mesa,

cabide, armário e mais trastes,

causam-me grata surpresa

inesperados contrastes!

Pois vejo em rasos lugares

entre a vil brutalidade

cadáveres seculares

da soberba humanidade!

Qualquer deles é de gente

(raça melhor que a do mono)

e talvez régio ascendente

em grau milésimo nono.

Quem quiser ter de sobejo

mui poéticos assuntos

veja, como eu também vejo,

nas múmias vivos defuntos.

Qual o nome deste prédio

que tantos mortos encerra?

Quero fazer-lhe o epicédio,

se a fantasia não erra.

— Museu — dizes que se chama,

e eu tenho ide ias confusas!

Museu, se creio na fama,

já foi o templo das Musas.