O MUSEU DO RIO DE JANEIRO
Versos de Homero e de Horácio
debalde estou procurando!
Nem da Grécia nem do Lácio
aqui entra contrabando!
E muito bruto se encontra,
cada um de sua casta,
a irara, a cutia, a lontra,
e a jiboia, que se arrasta.
Enfadonho vos parece
se, um por um, especifico
macacos de toda espécie,
desde o orangotango ao mico.
Aumentam a bicharia
bicharocos da Jamaica,
e há bastante poesia
em coleção tão prosaica!
Ver o pato acaçapado,
ou marreco pernicurto,
considero requintado
prazer, a que me não furto.
Observando tanta mesa,
cabide, armário e mais trastes,
causam-me grata surpresa
inesperados contrastes!
Pois vejo em rasos lugares
entre a vil brutalidade
cadáveres seculares
da soberba humanidade!
Qualquer deles é de gente
(raça melhor que a do mono)
e talvez régio ascendente
em grau milésimo nono.
Quem quiser ter de sobejo
mui poéticos assuntos
veja, como eu também vejo,
nas múmias vivos defuntos.
Qual o nome deste prédio
que tantos mortos encerra?
Quero fazer-lhe o epicédio,
se a fantasia não erra.
— Museu — dizes que se chama,
e eu tenho ide ias confusas!
Museu, se creio na fama,
já foi o templo das Musas.