O PASSARINHEIRO
Não posso louvar o instinto
Que revela o caçador,
De sangue vendo-se tinto
Sem compaixão e sem dor.
Todo o seu prazer é o campo,
Onde se julga feliz,
Quando o seu fiel Melampo
Lhe levanta uma perdiz.
Apenas a caça voa,
A arma no ponto ele pôs,
Crendo talvez cousa boa
Da ave ser o mau algoz.
Contra a perdiz inocente
Fizeram conspiração
O caçador, a serpente,
E o carnívoro gavião.
Sem a desculpa da fome,
Na posse de fruto e mel
Merece afrontoso nome
O caçador mais cruel.
Vem cá, meu passarinheiro,
Paixão de caça tens tu?
Pois leva o teu perdigueiro,
E rasteja um urutu.
Se não basta ainda, ataca
Um ninho de cascavéis,
Nem poupes a jararaca,
E traze-me cinco ou seis.
Desfia a bucha de palha,
Tempera a pedra e o fuzil
E sem piedade espalha
O chumbo contra o réptil.
Se destarte praticares,
A meu ver, farás assim
Milhares sobre milhares
De benefícios sem fim.
São tais inimigos do homem
Assaz dignos de morrer;
Os seus venenos consomem,
O seu bote é de doer.
Não é de hoje a inimizade,
E já vem muito de trás!
Por que combater não se há de
Tanto mal que se nos faz?
Da serpe invejosa e astuta
Os raciocínios de fel
Inspiraram a conduta
Da mãe e do pai de Abel.
E o passarinho que pia,
E donde o mal não provém,
Que ação má cometeria?
Qual a culpa que ele tem?
Bater o fraco é vileza,
Bater o forte é valor;
Porém de outro modo reza
Cartilha de caçador.