O PASSARINHEIRO

By José Joaquim Correia de Almeida

Não posso louvar o instinto

Que revela o caçador,

De sangue vendo-se tinto

Sem compaixão e sem dor.

Todo o seu prazer é o campo,

Onde se julga feliz,

Quando o seu fiel Melampo

Lhe levanta uma perdiz.

Apenas a caça voa,

A arma no ponto ele pôs,

Crendo talvez cousa boa

Da ave ser o mau algoz.

Contra a perdiz inocente

Fizeram conspiração

O caçador, a serpente,

E o carnívoro gavião.

Sem a desculpa da fome,

Na posse de fruto e mel

Merece afrontoso nome

O caçador mais cruel.

Vem cá, meu passarinheiro,

Paixão de caça tens tu?

Pois leva o teu perdigueiro,

E rasteja um urutu.

Se não basta ainda, ataca

Um ninho de cascavéis,

Nem poupes a jararaca,

E traze-me cinco ou seis.

Desfia a bucha de palha,

Tempera a pedra e o fuzil

E sem piedade espalha

O chumbo contra o réptil.

Se destarte praticares,

A meu ver, farás assim

Milhares sobre milhares

De benefícios sem fim.

São tais inimigos do homem

Assaz dignos de morrer;

Os seus venenos consomem,

O seu bote é de doer.

Não é de hoje a inimizade,

E já vem muito de trás!

Por que combater não se há de

Tanto mal que se nos faz?

Da serpe invejosa e astuta

Os raciocínios de fel

Inspiraram a conduta

Da mãe e do pai de Abel.

E o passarinho que pia,

E donde o mal não provém,

Que ação má cometeria?

Qual a culpa que ele tem?

Bater o fraco é vileza,

Bater o forte é valor;

Porém de outro modo reza

Cartilha de caçador.