O PASTOR DIVINO

By Cláudio Manuel da Costa

Onde, Enigma adorado,

Onde guias perplexo,

Confuso, e pensativo

Da minha idéia o vacilante curso?

Que sombras, que portentos

Encobres a meus olhos,

Ó ignorado arcano,

Que lá dessa distância

Inspiras de teu raio esforço ativo?

Eu vejo, que rompendo

Da noite o manto escuro

Vem cintilando a chama,

Que sobre o mundo todo a luz derrama.

Eu vejo, que do Oriente

A luminosa estrela,

Que os passos encaminha,

Quase a buscar a terra se avizinha.

Chegai, pastores,

Vinde contentes;

Que o novo sol

Já resplendece.

Oh que glória, que dita, que gosto

Nestes campos se vê respirar!

É esta a flor mimosa,

Que da Vara bendita,

Venturosa, jucunda,

Da raiz de Jessé brota fecunda!

É este o pastor belo,

Que o rebanho espalhado

Vem acaso buscar! É este aquele,

Que por montes, e vales

Conduz a tenra ovelha,

E mais que a própria vida,

Ama o rebanho seu! É este aquele,

Que as ovelhas conhece e a seu preceito

Obedecendo belas,

Também o seu Pastor conhecem elas!

Eu o tinha alcançado,

De enigmáticas sombras na figura,

Unigênito Filho

Do Eterno Criador. O Filho amado

De Abrão o testifica;

Jacó o compreende, Abel o explica.

Brandas ninfas, que no centro

Habitais dessa corrente,

Vinde ao novo sol nascente

Vosso obséquio tributar.

Já do monte descendo

Vem o pobre pastor: de brancas flores,

Ou já grinaldas, ou coroas tece,

E ao novo Deus contente as oferece.

Já de lírios, e rosas,

Pela glória, que alcança,

Animada a Esperança se coroa;

E alegres hinos de prazer entoa.

Chegai, pastores,

Vinde contentes;

Que o novo sol

Já resplendece.

Oh que glória, que dita, que gosto

Nestes campos se vê respirar!

Aquele tenro,

Cordeiro amado,

Sacrificado

Por nosso amor,

Sobre seus ombros

Conduz aceso

O duro peso

Do pecador.

Nascido infante

Ao mundo aflito

Nosso delito

Paga em amor.

Oh recompensa

Do bem perdido!

Oh do gemido

Prêmio maior!

Vem, Pastor belo;

Vem a meus braços;

Vem; que teus passos

Seguindo vou.

Mas ah! Que de prazer, e de alegria

Respirar posso apenas. Todo o campo

Florescente se vê. Estão cobertos

Os claros horizontes

De nova luz, de novo sol os montes.

Melhor luz não espere

Ver o mundo jamais. Concorram todos

A este luminoso

Assento; aonde habita

Aquele sol, que a vida ressuscita.

Vem, sol peregrino,

De nós suspirado;

Vem, Filho adorado

De Deus imortal.

Chegai, pastores,

Vinde contentes;

Que o novo sol

Já resplendece.

Oh que glória, que dita, que gosto

Nestes campos se vê respirar!