O PASTOR DIVINO
Onde, Enigma adorado,
Onde guias perplexo,
Confuso, e pensativo
Da minha idéia o vacilante curso?
Que sombras, que portentos
Encobres a meus olhos,
Ó ignorado arcano,
Que lá dessa distância
Inspiras de teu raio esforço ativo?
Eu vejo, que rompendo
Da noite o manto escuro
Vem cintilando a chama,
Que sobre o mundo todo a luz derrama.
Eu vejo, que do Oriente
A luminosa estrela,
Que os passos encaminha,
Quase a buscar a terra se avizinha.
Chegai, pastores,
Vinde contentes;
Que o novo sol
Já resplendece.
Oh que glória, que dita, que gosto
Nestes campos se vê respirar!
É esta a flor mimosa,
Que da Vara bendita,
Venturosa, jucunda,
Da raiz de Jessé brota fecunda!
É este o pastor belo,
Que o rebanho espalhado
Vem acaso buscar! É este aquele,
Que por montes, e vales
Conduz a tenra ovelha,
E mais que a própria vida,
Ama o rebanho seu! É este aquele,
Que as ovelhas conhece e a seu preceito
Obedecendo belas,
Também o seu Pastor conhecem elas!
Eu o tinha alcançado,
De enigmáticas sombras na figura,
Unigênito Filho
Do Eterno Criador. O Filho amado
De Abrão o testifica;
Jacó o compreende, Abel o explica.
Brandas ninfas, que no centro
Habitais dessa corrente,
Vinde ao novo sol nascente
Vosso obséquio tributar.
Já do monte descendo
Vem o pobre pastor: de brancas flores,
Ou já grinaldas, ou coroas tece,
E ao novo Deus contente as oferece.
Já de lírios, e rosas,
Pela glória, que alcança,
Animada a Esperança se coroa;
E alegres hinos de prazer entoa.
Chegai, pastores,
Vinde contentes;
Que o novo sol
Já resplendece.
Oh que glória, que dita, que gosto
Nestes campos se vê respirar!
Aquele tenro,
Cordeiro amado,
Sacrificado
Por nosso amor,
Sobre seus ombros
Conduz aceso
O duro peso
Do pecador.
Nascido infante
Ao mundo aflito
Nosso delito
Paga em amor.
Oh recompensa
Do bem perdido!
Oh do gemido
Prêmio maior!
Vem, Pastor belo;
Vem a meus braços;
Vem; que teus passos
Seguindo vou.
Mas ah! Que de prazer, e de alegria
Respirar posso apenas. Todo o campo
Florescente se vê. Estão cobertos
Os claros horizontes
De nova luz, de novo sol os montes.
Melhor luz não espere
Ver o mundo jamais. Concorram todos
A este luminoso
Assento; aonde habita
Aquele sol, que a vida ressuscita.
Vem, sol peregrino,
De nós suspirado;
Vem, Filho adorado
De Deus imortal.
Chegai, pastores,
Vinde contentes;
Que o novo sol
Já resplendece.
Oh que glória, que dita, que gosto
Nestes campos se vê respirar!