O poeta

By Delminda Silveira de Sousa

Astro — a um Céu puríssimo alumias,

quando o sendal das magas fantasias

o Gênio te adelgaça;

— lírio — rasgas as pétalas nevadas,

ao açoite impiedoso das rajadas,

aos golpes da desgraça.

Águia soberba a devassar os Andes,

quando, do alto, como a luz, expandes

teu ideal sublime;

meiga pomba de amor quando entre flores

tu’alma arrulha os dúlcidos amores

que só teu verbo exprime.

— Quem poderá sondar-te d’alma o fundo,

si à flor do lago plácido e profundo

só se retrata o Céu?

Si do vulcão a chama abrasadora

bem no seio da terra s’elabora

e abrasa o imo seu?!

Mas quando negra tempestade enluta

o puro azul do Céu, e a terra nuta,

aos roncos do trovão;

quando derrama altivo monte a lava

da profunda cratera que se cava

às iras do vulcão:

não vês por sobre a flor do manso lago,

sombrio crepe a distender-se vago,

lhe vir turbar a cor?

e a voraz chama que o contorno abrasa

tornar d’aurora a branca e fina gaza

sanguíneo véu d’horror?...

Pomba de amor — a alma do Poeta,

mimosa e triste, qual gentil violeta,

quer amor, quer ternura;

ferida, geme, e altiva o insulto esmaga;

mas si a vida sorri-lhe, e amor a afaga

— é flor, só tem doçura.

Ah! si na terra o ideal sonhado,

como oásis de flores perfumado,

encontra a peregrina:

— astros, auroras, flores e perfumes,

d’aves canoras gárrulos cardumes —

que o Céu vos não fascina!...

Sim; do Poeta o coração sensível

guarda um Éden, no íntimo, invisível,

que só ventura encerra!

e o amor de sua alma apaixonada

é como a doce luz da madrugada:

— de flores enche a terra!