O poeta
Astro — a um Céu puríssimo alumias,
quando o sendal das magas fantasias
o Gênio te adelgaça;
— lírio — rasgas as pétalas nevadas,
ao açoite impiedoso das rajadas,
aos golpes da desgraça.
Águia soberba a devassar os Andes,
quando, do alto, como a luz, expandes
teu ideal sublime;
meiga pomba de amor quando entre flores
tu’alma arrulha os dúlcidos amores
que só teu verbo exprime.
— Quem poderá sondar-te d’alma o fundo,
si à flor do lago plácido e profundo
só se retrata o Céu?
Si do vulcão a chama abrasadora
bem no seio da terra s’elabora
e abrasa o imo seu?!
Mas quando negra tempestade enluta
o puro azul do Céu, e a terra nuta,
aos roncos do trovão;
quando derrama altivo monte a lava
da profunda cratera que se cava
às iras do vulcão:
não vês por sobre a flor do manso lago,
sombrio crepe a distender-se vago,
lhe vir turbar a cor?
e a voraz chama que o contorno abrasa
tornar d’aurora a branca e fina gaza
sanguíneo véu d’horror?...
Pomba de amor — a alma do Poeta,
mimosa e triste, qual gentil violeta,
quer amor, quer ternura;
ferida, geme, e altiva o insulto esmaga;
mas si a vida sorri-lhe, e amor a afaga
— é flor, só tem doçura.
Ah! si na terra o ideal sonhado,
como oásis de flores perfumado,
encontra a peregrina:
— astros, auroras, flores e perfumes,
d’aves canoras gárrulos cardumes —
que o Céu vos não fascina!...
Sim; do Poeta o coração sensível
guarda um Éden, no íntimo, invisível,
que só ventura encerra!
e o amor de sua alma apaixonada
é como a doce luz da madrugada:
— de flores enche a terra!