O pomar

By João da Cruz e Sousa

Nada mais fresco e mais purificado

Do que um pomar todo ele aberto em flores,

Onde um sol festival e purpureado

Deixa cair brilhantes esplendores.

Fica tudo risonho e perfumado

Quando das rosas vão se abrindo em cores.

Tudo freme de beijos e harmonias,

Harmonias de amor e quentes beijos

Acesos como as grandes alegrias

Ou como as almas ébrias de desejos;

E os pássaros — aladas fantasias,

Vibram nos ninhos trêmulos harpejos.

De cada flor explode uma alvorada

De aromas leves e canções cheirosas;

E à luz do dia pelos céus vibrada

Lírios, papoulas, violetas, rosas

Abrem num riso a boca delicada

Cheio de emanações deliciosas.

Nada possui mais cândida frescura

Do que essa doce e casta natureza!

Tudo toma outro encanto e formosura,

Uma irial e lírica beleza

Quando o pomar na esplêndida verdura

Pompeia falas, luxos de princesa.

E nada causa tanto encantamento

Como sentir em roda da paisagem

O aroma virginal que traz o vento

Quando faz agitar toda folhagem

Num sutil arrepio brando e lento

De momentânea, murmurante aragem.

Há madrigais, idílios e ruídos

Soltos, dispersos entre os arvoredos,

Idílios, madrigais indefinidos

Dos amorosos, íntimos segredos...

E dos altivos céus resplandecidos

Descem os dias prósperos e ledos.

Toda a beleza do pomar encanta,

Prende e seduz as almas e os olhares;

E essa ventura emocional é tanta

Que faz abrir os belos nenúfares

E faz cantar o coração, que canta

Como todas as aves dos pomares.