O pomar
Nada mais fresco e mais purificado
Do que um pomar todo ele aberto em flores,
Onde um sol festival e purpureado
Deixa cair brilhantes esplendores.
Fica tudo risonho e perfumado
Quando das rosas vão se abrindo em cores.
Tudo freme de beijos e harmonias,
Harmonias de amor e quentes beijos
Acesos como as grandes alegrias
Ou como as almas ébrias de desejos;
E os pássaros — aladas fantasias,
Vibram nos ninhos trêmulos harpejos.
De cada flor explode uma alvorada
De aromas leves e canções cheirosas;
E à luz do dia pelos céus vibrada
Lírios, papoulas, violetas, rosas
Abrem num riso a boca delicada
Cheio de emanações deliciosas.
Nada possui mais cândida frescura
Do que essa doce e casta natureza!
Tudo toma outro encanto e formosura,
Uma irial e lírica beleza
Quando o pomar na esplêndida verdura
Pompeia falas, luxos de princesa.
E nada causa tanto encantamento
Como sentir em roda da paisagem
O aroma virginal que traz o vento
Quando faz agitar toda folhagem
Num sutil arrepio brando e lento
De momentânea, murmurante aragem.
Há madrigais, idílios e ruídos
Soltos, dispersos entre os arvoredos,
Idílios, madrigais indefinidos
Dos amorosos, íntimos segredos...
E dos altivos céus resplandecidos
Descem os dias prósperos e ledos.
Toda a beleza do pomar encanta,
Prende e seduz as almas e os olhares;
E essa ventura emocional é tanta
Que faz abrir os belos nenúfares
E faz cantar o coração, que canta
Como todas as aves dos pomares.