O PRISIONEIRO
— “Lindo canário dourado
Que vives aí fechado
Nessa pequena gaiola,
Solta teu canto mimoso
Que o teu gorjeio saudoso
Minh’alma triste consola.
Dize-me, ó meiga avezinha,
Tão inocente e mansinha,
Por que estás nessa prisão?
Que fizeste? Qual teu crime?
Quem, deste modo, te oprime,
Sem ter de ti compaixão?...
Canta, mimoso canário,
E, no teu canto, o sumário
Resume, do teu viver;
Que os juízes, com demência,
Darão à tua inocência
O prêmio que merecer.
Em vez da estreita gaiola
Que te deram por esmola,
Tirando-se a imensidades,
Revoarás pelo espaço
Sem peias, sem embaraço
Nos vôos da Liberdade”.
— “Meu crime? — responde-o triste,
Em que meu crime consiste?
Não sei dizê-lo... não sei!
Dizem-me lindo, mimoso,
Tenho o canto sonoroso,
Visto-me douro... sou rei!
Fui livre na verde mata
Tinha das fontes a prata,
Da luz do sol tinha o ouro.
E pelos ares voando,
Ia contente gozando
As prendas do meu tesouro.
Quando a manhã despontava
Meu doce canto elevava
Ao Eterno-Criador;
E quando a noite descia
Na verde rama dormia
Quieto, como uma flor.
Mas, um dia... (oh! bem me lembro!)
Foi pelo mês de Setembro,
Já reinava a Primavera,
Minha terna companheira
Num galho da laranjeira
O novo ninho tecera.
Enquanto ela, amorosa,
— Mãe feliz e descuidosa —
Os ovinhos aquecia:
Eu, sobre o ramo florido
Num doce canto embebido
Meu terno amor lhe dizia.
Eis, porém, que de repente
Um rapazito indolente
Que deixara de ir à escola,
No galho da laranjeira
Com hábil mão traiçoeira,
Armou-me a infernal gaiola.
Ali, no aberto alçapão,
Eu via farta ração
De louro alpiste gostosa;
Voei para o comedouro...
Ai!... todo aquele tesouro
Fora ilusão enganosa!
Chorei... cantando, chorava
Da pura dor que magoava
O meu pobre coração;
Ah! que triste amarga sorte!...
Perdi a meiga consorte,
Meus amores, meu sertão!
Nesta dura soledade,
Choro a doce liberdade
Duma existência ditosa;
Choro meu ninho desfeito
Por que não tinha no peito
Alma bela e caridosa!”
E sempre que o sol raiava,
Sempre que a noite chegava
Se ouvia o canto magoado
Do pobrezinho inocente
— Preso, sem ser delinquente,
Sofrendo, sem ser culpado!