O PRISIONEIRO

By Delminda Silveira de Sousa

— “Lindo canário dourado

Que vives aí fechado

Nessa pequena gaiola,

Solta teu canto mimoso

Que o teu gorjeio saudoso

Minh’alma triste consola.

Dize-me, ó meiga avezinha,

Tão inocente e mansinha,

Por que estás nessa prisão?

Que fizeste? Qual teu crime?

Quem, deste modo, te oprime,

Sem ter de ti compaixão?...

Canta, mimoso canário,

E, no teu canto, o sumário

Resume, do teu viver;

Que os juízes, com demência,

Darão à tua inocência

O prêmio que merecer.

Em vez da estreita gaiola

Que te deram por esmola,

Tirando-se a imensidades,

Revoarás pelo espaço

Sem peias, sem embaraço

Nos vôos da Liberdade”.

— “Meu crime? — responde-o triste,

Em que meu crime consiste?

Não sei dizê-lo... não sei!

Dizem-me lindo, mimoso,

Tenho o canto sonoroso,

Visto-me douro... sou rei!

Fui livre na verde mata

Tinha das fontes a prata,

Da luz do sol tinha o ouro.

E pelos ares voando,

Ia contente gozando

As prendas do meu tesouro.

Quando a manhã despontava

Meu doce canto elevava

Ao Eterno-Criador;

E quando a noite descia

Na verde rama dormia

Quieto, como uma flor.

Mas, um dia... (oh! bem me lembro!)

Foi pelo mês de Setembro,

Já reinava a Primavera,

Minha terna companheira

Num galho da laranjeira

O novo ninho tecera.

Enquanto ela, amorosa,

— Mãe feliz e descuidosa —

Os ovinhos aquecia:

Eu, sobre o ramo florido

Num doce canto embebido

Meu terno amor lhe dizia.

Eis, porém, que de repente

Um rapazito indolente

Que deixara de ir à escola,

No galho da laranjeira

Com hábil mão traiçoeira,

Armou-me a infernal gaiola.

Ali, no aberto alçapão,

Eu via farta ração

De louro alpiste gostosa;

Voei para o comedouro...

Ai!... todo aquele tesouro

Fora ilusão enganosa!

Chorei... cantando, chorava

Da pura dor que magoava

O meu pobre coração;

Ah! que triste amarga sorte!...

Perdi a meiga consorte,

Meus amores, meu sertão!

Nesta dura soledade,

Choro a doce liberdade

Duma existência ditosa;

Choro meu ninho desfeito

Por que não tinha no peito

Alma bela e caridosa!”

E sempre que o sol raiava,

Sempre que a noite chegava

Se ouvia o canto magoado

Do pobrezinho inocente

— Preso, sem ser delinquente,

Sofrendo, sem ser culpado!