O QUE FAZ MINHA DOR
Um pensamento de morte,
Uma lembrança de amor,
Uma esperança perdida,
Eis o que faz minha dor!...
Tive no mundo da mente
Formosos dias serenos,
Como os do céu sempre amemos
Em doce paz inocente.
Dos desgostos a torrente
Em um rápido transporte,
Por má vontade da sorte,
Me fizeram num momento
Do meu feliz pensamento
“Um pensamento de morte!”
A minha alma escureceu-se
Do pensamento nublada,
E a mente desnorteada
Em negro caos converteu-se!
Um mar de pranto — estendeu-se
Naquele mundo de horror;
E no medonho fragor
Da tormenta desabrida
Vaga nas ondas, perdida,
“Uma lembrança de amor!”
Cresce a celeste batalha,
E na vasta escuridade
Sem cessar, da tempestade
O raio o manto retalha
A flutuante mortalha,
Vaga sempre! Convertida
Aquela idéia de vida
Num sudário desta sorte,
Retrata, emblema da morte
“Uma esperança perdida.”
Em pé firme e solitária,
Minh’alma fora insensível
À tempestade terrível,
Contínua, crescente e vária!...
Mas a veste mortuária,
Que das ondas vai na flor,
Mortalha do meu amor,
Dantes saudosa lembrança...
Hoje perdida esperança...
“Eis o que faz minha dor!...”