O sabiá

By Delminda Silveira de Sousa

Eu sempre o vejo, em cada primavera,

quando lança a manhã seu véu mimoso

por sobre a Natureza,

qual trovador que o meigo canto esmera

casando — amor — ao treno suspiroso

da lira da tristeza.

Eu sempre o vejo, e o salmear sonoro,

do cajueiro em flor por entre o aroma,

mais terno se desprende,

quando silente, pelo ocaso d’ouro

mimosas cintas que do Ires toma

a tarde bela estende.

Eu sempre o vejo... e embevecida escuto

a doce queixa ao rumorejo envolta

da verde ramaria,

quando a noite desdobra o véu de luto,

e a voz do sino pelos ares solta

o — salve — preludia.

Quando andorinha forasteira volve

co’o renovar primaveril das flores,

à beira dos telheiros

eu sempre o vejo, e o canto seu m’envolve

de saudoso cismar dos meus amores

nos sonhos feiticeiros.

Vem, ó meigo cantor! não tardes tanto,

que já no verde laranjal branquejam

os ternos botõezinhos.

Suspira a brisa em lânguido quebranto,

do sol aos raios tépidos verdejam

as moitas dos caminhos.

As borboletas, nos relvados bastos,

por sobre o verde semelhando flores,

espreitam o abrir das rosas;

plúmeos artistas d’entre os lírios castos,

fabricam berços p’ra novéis amores

co’as plumas cetinosas.

Vem, ó meigo cantor, não tardes tanto!...

anseio ouvir o dúlcido lamento

que o meu cismar circunda

como auréola de luz ou mago encanto

de perfumes sutis que em brando alento

triste remanso inunda!