O SAPATEIRO

By José Joaquim Correia de Almeida

Muito trabalha

O sapateiro,

Sentado à banca

O dia inteiro.

Logo que brilha

O arrebol,

No fio passa

Duro cerol.

Sempre sentado

E nunca em pé,

Segura a forma

C’o tira-pé.

À sola esfrega

Áspera lixa,

Nos próprios dentes

O couro espicha.

Puxa a palmilha

Como bater

No duro cepo,

Até crescer.

Por desbastar

Move o cutelo,

Por estender

Bate o martelo.

A escova empunha

De quando em vez,

O botim lustra

De bom freguês,

Que a molhadura

De oitenta réis,

Lhe retribui

Para pastéis.

Toma a medida

Para o calçado,

Se não de cócaras,

Ajoelhado.

Se os dedos fura

Com a sovela,

Tudo isso é nada,

É bagatela.

E as obras dele

Tão trabalhadas

Por nossos pés

Serão pisadas?

Pois vingativo

Seja desforro;

Sapatos faça,

Mas de cachorro.