O sol

By Delminda Silveira de Sousa

Surges além, e o Céu se esmalta d’ouro,

e convertem-se as lágrimas da noite

em preciosas pedras rutilantes;

e de perlas derrama-se um tesouro

da brisa matinal ao brando açoite

sobre o tapiz dos campos verdejantes.

Desbrocham os botões das lindas flores,

aos almos beijos de tua luz criadora,

e a fragrância sutil do virgem seio

das boninas gentis de várias cores,

como grata homenagem sedutora

a ti s’evolam num constante anseio.

Desperta o bosque ao matinal encanto,

em ledos hinos, em murmúrios ternos,

em pipilar de amor puro, inocente;

e a tua luz num confortável manto

como em carinhos dúlcidos, maternos,

envolve os brandos ninhos docemente.

A flor desbrocha, os frutos madurecem,

e o pobre camponês para o trabalho

vai pelo campo, alegre, descuidado,

que os raios teus, ó sol, no berço aquecem

com salutar e tépido agasalho,

o filhinho que dorme desnudado.

Tu és da providência a imagem bela,

de luz, de força e vida, radiante,

nem o tempo te abate a majestade!

Se te escurece a nuvem da procela,

te revelas no Íris cambiante,

como emblema de paz na imensidade!

Tomba na mata o cedro agigantado,

desperta o raio secular rochedo,

todo o poder ao — nada — se reduz;

só tu campeias sobranceiro, ousado!

Guardas da Criação o almo segredo...

Oh! sol — jamais se apaga a tua luz!