O sol e o coração

By João da Cruz e Sousa

Sol, coração do Espaço que flamejas,

O coração é qual tu, sol de utopias...

Mas, coração, dize-me: — Que desejas?...

Foram-se já todas as alegrias,

Ó Sol! E tu, coração, que ainda adejas,

Que fazes sobre as mortas fantasias?!...

Podes brilhar, ó Sol, vivo e fulgente!

E tu, coração, que me iludiste,

Também podes bater, inutilmente.

Crença, Ilusão, Amor, já nada existe,

Não mais levarás sobre a corrente

Da tenebrosa dúvida mais triste.

Longe, mui longe, em regiões caladas,

Emudecidos pelo Esquecimento,

Estão hoje esses sonhos de alvoradas.

Foram-se, há muito, soltos pelo vento

Entre as grandes ruínas derrocadas

Do meu amargo e pobre pensamento,

Entre as profundas, tétricas ruínas

Em que o doce fantasma desses sonhos

Atravessou em lágrimas divinas.

Fantasma ideal, de cânticos risonhos

Que da vida encontrei pelas colinas

E hoje vaga entre bulcões medonhos!

Fantasma que eu amei, visão errante

Que sempre junto a mim vivia perto,

Por mais longe que eu fosse e mais distante.

Visão que era como a água do deserto

Para o meu coração sempre anelante,

Sequioso de amor e sempre aberto...

Ó pobre coração, em vão te agitas,

Em vão tu bates, coração estreito,

Tal qual tu, Sol, nos páramos crepitas.

Nada mais, para mim, de satisfeito

Brilha com o Sol nas plagas infinitas,

Como não canta o coração no peito...

Podes, enfim, sumir-te nos Espaços

Sol! E tu, coração, sempre batendo,

Quebrar da terra os “Transitórios Laços”

Eternamente desaparecendo!...