O SONHO

By Nicolau Tolentino de Almeida

Depois que à luz de trêmula candeia

Entre os pobres lençóis me revolvia,

E ao cérebro dormente já subia

O grosso fumo da indigesta ceia;

Brilhante sonho na enganada ideia,

Por maior mal, venturas me fingia;

Fez-me entrar na real secretaria,

Fez-me logo deitar sege à boleia;

Pôs-me na sala um espaldar comprido.

Um válido lacaio em camisola,

E um correio com chapa no vestido:

Eis que soa na porta a dura argola;

Foge-me o sonho, acordo espavorido,

Era um rapaz que vinha para a escola.