O TEMPO

By Laurindo José da Silva Rabelo

Deus pede estrita conta de meu tempo,

É forçoso do tempo já dar conta;

Mas, como dar sem tempo tanta conta,

Eu que gastei sem conta tanto tempo?

Para ter minha conta feita a tempo

Dado me foi bem tempo e não foi conta.

Não quis sobrando tempo fazer conta,

Quero hoje fazer conta e falta tempo.

Oh! vós que tendes tempo sem ter conta

Não gasteis esse tempo em passatempo:

Cuidai enquanto é tempo em fazer conta.

Mas, oh! se os que contam com seu tempo

Fizessem desse tempo alguma conta,

Não choravam como eu o não ter tempo.

Para do mundo dar completo cabo,

Lá do negro recinto o soberano

Meditava a forjar horrível plano

Coçando a grenha, sacudindo o rabo.

Merecedor enfim de imenso gabo,

Eis o que assim disse muito ufano:

Para a missão cumprir — digesto humano

Quero fazer — que nasça hoje um diabo.

E o 23 de maio nisso raia...

Teotônio nasceu, e a fama soa

Jamais ter visto infame dessa laia.

Pois para Satã ser mesmo em pessoa,

Traja, qual bruxa velha, negra saia,

Como o rei dos bandalhos tem coroa.

Vendo da peste o bárbaro flagelo

Mil vidas a ceifar a cada instante,

D’África deixa o solo distante

E veio no Brasil curar Otelo.

O semblante imposto negro-amarelo

Cresta do orgulho a chama crepitante,

Traz cheia de vidrinhos o turbante,

E buído punhal por escalpelo.

Homeopata é, e o albergue puro

Do puro Martins busca e diz-lhe ardido:

“Doutor, eu quero ter vosso futuro.”

— Bravo! grita o Martins enternecido;

Pelas cinzas de Hahnemann te juro

Que não hás de morrer desconhecido.