O velho nauta

By Delminda Silveira de Sousa

Soprava rijo do sul,

o mar batia nas fragas,

quando o vi, soltando às vagas,

a leve barquinha azul.

Em bando fogem medrosas

as níveas gaivotas belas

qu’em véu de negras procelas

se trocam nuvens mimosas.

E o velho nauta às rajadas,

o branco pana desata;

rebentam em velos de prata

as altas vagas iradas!

Rugem as vagas...e, fundo,

cava-se o abismo terrível!

Murmura o nauta — “impossível!”

fitando triste o profundo.

E ruge o trovão ferindo

d’horrores o Céu pesado;

no mar, d’espumas rendado,

se abisma o raio, caindo!

Depois... torrentes, torrentes

dos regaços da procela;

depois, cintila uma estrela...

e sopram auras trementes.

Mas... ah! que à praia chegando

as ondas gemem de dor,

medonhos transes de horror

à branca areia contando!

Batel azul temerário,

além no mar se perdera,

e o pobre nauta envolvera

da vaga o negro sudário!

E as ondas volvem gemendo

e à praia morrem de dó,

do pobre nauta trazendo

despojos...despojos só!...