O VELHO, SÁTIRA
Em vão te quero fugir;
Faial velhice, as luas selas
De perto me vem ferir;
Bem ouço o som das moletas,
E bem te sinto tossir:
Assim natureza o quis;
Já em teu rol me alistaste;
Já em triunfo infeliz
Uns óculos arvoraste
Neste vencido nariz:
Vens agora em teu vassalo
Imprimir novos ferretes;
Aos justos me humilho e calo;
Brotem nodosos joanetes,
Nasça em cada dedo um calo:
Mas não dês com mão maldita
Castigo sobre castigo;
Eu não fujo à lei prescrita;
E teimar tanto contigo.
Não e lei, é reivindica:
Queres que nojoso pranto
Já me creste rubros olhos?
E não farta inda com tanto,
Alças barrete de folhos,
E já me apontas um canto?
Já me mandas, que abafado,
Mártir de algozes receios,
Pardo lenço sobraçado,
Tente convulsos passeios
No meu galego encostado?
Venha o mal, mas não se apresse;
Sobre o consultado espelho
Meu rosto não esmorece;
Queres saber quem é velho?
É velho quem o parece:
Sei que a calva me condena;
Que importuna cor desdoura
 grenha, pouca, e pequena;
Mas esta marrafa loura
Lança um véu sobre a gangrena:
Não me venha já fechar
Apressada mão ferina;
Tenho uma alma, e posso andar;
Quero da fiei Nerina
Pela rua passear:
Sisudo amor nos prendeu;
Nerina não quer ver rotos
Os laços que me teceu;
Quer consagrar nossos votos
Ante a faixa de Himeneu:
Velhos da última idade,
Ao longo calção estreito
Mandam apertar metade.
Porque inda traz o defeito
De andarem nele à vontade;
Pois se ha tantos refundidos
Com quem fazes grossa a vista,
Seja eu dos favorecidos;
Aumenta comigo a lista
Dos teus escravos fugidos:
Deixa, enfim, deixa abrandar-te;
Quando não, rebelde presa.
Hei de as forças disputar-te;
Tens por ti a natureza.
Eu tenho o costume e a arte:
Troca a arte anosos freixos
Em dourado bergantim;
Troca em ninfas toscos seixos;
E torna em alvo marfim
Podres, solitários queixos:
Que imporia que a cor grisalha
Me infame o rosto ronceiro.
Se enquanto da Europa ralha,
Leva falador barbeiro
Os meus anos na navalha?
Se em cortesã sociedade
Lésbia contrafaz denguice;
E fiada no alvaiade.
Quer tributos na velhice.
Sem os ter na mocidade:
De tigelas rodeada,
Se à vontade os anos troca;
E por ficar bem pintada.
Com colher dentro da boca
Alteia a face engilhada:
Se, a surda orelha aplicando,
Por mostrar que ouvira tudo,
Vai co’a cabeça aprovando
Maganão, que em ar sisudo.
Serpente lhe está chamando:
Se assim mesmo quer amantes;
Se Alcino ajustando à lira
Mentirosos consoantes,
A seus joelhos suspira
Pelos brincos de diamantes:
Moço de mesquinha sorte,
Que tendo à indigência horror,
Vende amoroso transporte,
E entoa os hinos de amor
Ao simulacro da morte:
Pois se a Lésbia é permitido
Rebelar-se à natureza,
E a seu duro açoute erguido;
Porque estúpida baixeza
Hei de eu dar-me por vencido?
Cedam trêmulos jarretas,
Que já quatro idades contam;
De Cupido as mãos discretas
Sobre cinzas não apontam
As suas douradas setas:
Ceda Anfrônio, que assentado,
O queixo em vão mastigando,
Na poltrona agasalhado,
Vai sendo de quando em quando
Pelas filhas assoado:
Que dando risadas tontas
Da contradança aos enredos,
E rezando ao som de afrontas,
As netas apertam dedos,
Enquanto ele passa contas:
Sobre Anfrônio assenta bem
Teu açoute levantado;
Contra mim sem tempo vem;
Que em estando escanhoado.
Não me troco por ninguém:
Debalde de alcatruzar-me
Agora em vingança gostas:
Vejo Nerina a esperar-me.
Gritarei com dor de cosias,
Porém hei de endireitar-me:
Gemam, subindo a calçada.
Meus torcidos ossos velhos;
Que com a porta cerrada,
Pondo a cara nos joelhos,
Tomarei folgo na escada:
Entrarei fazendo agrados,
Comprados dentes mostrando
Os meus beiços ensinados;
E nos aventais lançando
Mãos cheias de rebuçados:
Direi mil amores ternos,
Ante Nerina ajoelhado;
Mascarando os meus invernos
Com cabeção encarnado,
E botõezinhos modernos:
“Meu tudo, vem um primor;
Vale mais que mil paraltas;
É o retrato do Amor;
Bem lhe estão as feições altas;
Vem hoje mesmo uma flor:”
“Senhora, são os enganos
Da beleza companheiros;
Em mim só ha desenganos;
Tendes nestes cavalheiros
Mais prendas, e menos anos:
“Outra idade me convinha
Para vos ser bem aceito;
A acender a paixão minha
Vênus contra o vosso peito
Seus cisnes não encaminha:”
Beijo-lhe a nevada mão,
E vou por ela mandado.
Pondo um chapéu de galão,
Repetir, com pé virado,
Castelhana relação:
Mas tu, velhice raivosa,
Só comigo impertinente,
Desigual, escandalosa.
Com tantos tão indulgente,
Comigo tão rigorosa!
Forjando na testa injusta
Vis ideias insultantes,
Gritas, que Nerina é justa;
Que me lança aos circunstantes,
E os diverte à minha custa:
Que é a travessa Nerina,
Que me fez ao sol expor
Dez manhãs a uma esquina;
Sendo as pagas deste amor
Risadas, e uma maligna:
Que fios sete amantes seus
Que suspiramos feridos
Co’as setas do cego deus,
Escuta os ternos gemidos;
Mas por mofa, só os meus:
Que os olhos, que eu chamo sóis,
Mestres de atrativas tretas.
Tem só ouro por faróis;
Que ali forja Amor mil seitas.
Que levam na ponta anzóis:
Mas que bárbara insolência!
Que injusto, infernal conceito!
E és tu irmã da prudência?
Infamar um casto peito,
Trono de amor e inocência?
Unir-se a noite co’a aurora.
Ver rebentar d’água fria
Viva chama abrasadora,
Mais fácil isto seria,
Que ser Nerina traidora:
Seus fiscais meus olhos são,
Inda d’antes que os seus passos
Tocassem paterno chão;
Vi-a crescer nos meus braços,
Leio no seu coração:
Sem mim nunca pôde estar;
Co meu moço à noite vou
A sua porta rondar,
Quer saber que ali estou.
Gosta de ouvir-me escarrar:
Contando histórias de fadas,
Em horas que o pai não vem,
E co’as pernas encruzadas.
Sentado ao pé do meu bem,
Lhe dbo as alvas meadas:
Seus escritos, que me afirmam
Singelo amor, fé segura,
Com o seu sangue se firmam,
Pelos meus olhos o jura,
E as criadas o confirmam:
A cassa, a fina sedinha.
De que as gavetas são fartas,
Com inveja da vizinha,
O pai mesmo lê as cartas,
Em que lh’as manda a madrinha:
Quando alguém mais cedo chega
Nos dias de companhia.
Aos p’rigos nunca se entrega;
Leva sempre a austera tia,
Inda apesar de ser cega:
E tu, velhice cruel,
Manchas tão justa paixão!
Com a língua molhada em fel
Manchas puro coração,
A si e a mim tão fiel!
Mas ainda a ser evidente
Quanto queres inventar,
Apostolo impertinente.
Para que hás de tu suar.
Se não sua o padecente?
Doces expressões sinceras,
Meigo carinhoso dó,
Supõe que não são deveras;
Por ventura sou eu só.
Que me nutro de quimeras?
Se pôs natureza crua
Em cada um, um furor.
Só em mim a espada nua?
Se a minha teima é o amor.
Todos os mais tem a sua:
Fábio, antigo cavalheiro.
Mas que herdou só pergaminhos,
Quebrando hoje o mialheiro,
Deixou rotos os filhinhos,
E comprou um reposteiro:
Pede esmola em baixa voz:
E alegre sua alma nobre,
Zomba da pobreza atroz.
Beijando no dado cobre
As armas de seus avós;
Tício de versos falidos
Fabricante impertinente,
Uns curtos, outros compridos,
Quer que gemam igualmente
As imprensas, e os ouvidos:
Enfastiados fregueses
Juram que este autor é louco;
O cego grita seis meses;
E à noite, raivoso e rouco,
Conta os mesmos entremezes:
Mas freira, que tem dinheiros,
E da Fênix Renascida
Repele tomos inteiros;
Dois triênios incumbida
De dar mofes nos oiteiros;
Que hoje com dois estupores,
Buscou dos banhos o abrigo;
Pródiga em chá e em louvores,
E quem desforra este amigo
Do desprezo dos leitores:
Tício ri de sem-razões,
Vende ás lendas pelo vulto
As divinas produções;
E tem dó do povo estulto,
Que gosta mais do Camões:
Pois se aqui na terra dura,
Que tu empeiorado tens,
Não ha sólida ventura,
Deixa-lhe ao menos os bens,
Que finge a humana loucura:
Mas tais argumentos são
Paia o meu caso escusados;
De Nerina a estimação.
Firme amor, doces agrados,
Não são bens de opinião:
Velho que atento namora,
Que arrosta calmas intensas
Por servir a quem adora;
Que lhe cobra logo as tenças,
Que é comprador da senhora;
Que é calado, que é polido,
Que tem um coração liso.
Com outras não dividido.
Pelas damas de juízo
É aos moços preferido;
Que faz sobrancelha preta,
Corpo esbelto, olhos bonitos.
Se sabe a dama discreta.
Que nos cafés seus escritos
São a segunda gazela;
Mil relógios, mil fivelas.
Que aos Adônis muitas deram
Para uma irmã ir a Belas,
Á terça feira penderam
Nas cabanas das adelas.
Cuidas que é um corolário
Ser velho amante infeliz?
Amor é muito arbitrário;
Manda este sábio juiz
Muitas vezes o contrario:
Roto dicionário antigo
Me dá Neste assunto a mão;
Trata d’’este mesmo artigo;
E ainda que é mera ficção,
Atiça a luz ao que eu digo:
Branda doença tocava
De moço marido o peito;
Terna esposa o não deixava;
Desgrenhada sobre o leito,
Triste pranto derramava:
Vem loquaz medico forte,
Que com a pena homicida
Governa as cousas de sorte,
Que nos esteios da vida
Levanta o trono da morte:
Por ele os ais derradeiros
Em milhões de tetos voam;
Por ele folgam herdeiros;
E em mil ermos adros soam
As enxadas dos coveiros:
A triste vítima então,
Que o último instante goza,
Porque caíra em tal mão.
Passou dos braços da esposa
Para as garras de Plutão:
Não foi ver a clara luz.
Que em doce silencio raia
Nesses vastos campos mis,
Aonde o filho de Maia
Piedosas sombras conduz:
Foi ao reino dos espantos;
O coitadinho pasmava,
Quando ali viu tais, e tantos;
Viu muitos que ele cuidava
Que eram Neste mundo uns santos:
Mas o que mais o admirou
Foi ver seu velho criado,
Que ele dos bons pães herdou,
For longas cãs abonado,
E a quem a casa entregou:
Homem, lhe diz, que a ambição
Me viesse aqui trazei-,
Pede-o a justiça, e a razão;
Quis meu filho enriquecer,
E para ele fui ladrão:
Mas de ti me maravilho;
Dize, ó homem de conselho,
Porque vieste a este trilho?
“Vim, responde o aflito velho,
Por ser o pai do tal filho:”
Com esta história te ensino...
Porém tu me tens vendido;
E às ideias que combino.
Vás c’o teu queixo caído
Dando um sorriso maligno:
Dizes que os anos escondo,
Fundando razões nos ventos;
Que à parte a verdade pondo,
A sisudos argumentos
Só com tabulas respondo;
E enquanto te estou provando,
Que me devem ter amor.
Vás as seta aliando;
E o traído pregador
Com elas ameaçando:
Fira embora a mão mesquinha,
Que eu nunca lhe cederei;
E Nerina a paixão minha;
E por casas andarei
Atrás d’ela em cadeirinha:
Ela virá ajudar
Meus tardos, mal firmes passos
E por não me constipar,
Irão os seus alvos braços
As vidraças abaixar:
Sua boca esfriará
Meu chá, se quente o sentir;
Meus óculos limpará;
E para me fazer rir,
No seu nariz os porá:
Perdes enfim os cuidados
Sem vires c’os teus sequazes,
Triunfantes apupados.
Brinco e medo dos rapazes.
Os sujos gatos-pingados:
Então quando tendo alçado
Das tristes, feridas casas,
A morte seu vôo ousado,
Encolher as negras asas,
E pousar no meu telhado;
Quando os dias que me agouras
Sentirem o última trio
Que em teus cofies entesouras,
Ê a Parca em meu débil fio
Fechar as fatais tesouras;
Então sim, então venceste;
Os teus olhos fartarás
No triunfo que tiveste:
Mas também então verás
A loucura que fizeste:
Sem um velho assim jucundo,
Que ponha cor, ponha dentes,
Quais são teus bens, qual teu fundo?
És o terror dos viventes,
És o maior mal do mundo:
Sem mim, sem minhas trapaças,
Sem ternura, sem meiguice,
Sem estudadas negaças,
Como andaria a velhice
A par do amor e das graças?
Chora então quem te arrancou
O arraigado vitupério;
Que os horrores te afastou;
Que adoçou o teu império,
E que, em te negar, te honrou:
E sobre uma campa breve.
Com profundado lavor.
Que a mão do tempo não leve,
Em honra lua, e do amor.
Este epitáfio me escreve:
“Aqui, lisa pedra encobre.
Um peito nunca infeliz;
Todo o amante ânimo cobre.
Vendo que este foi feliz.
Que além de velho, era pobre.”