O VELHO, SÁTIRA

By Nicolau Tolentino de Almeida

Em vão te quero fugir;

Faial velhice, as luas selas

De perto me vem ferir;

Bem ouço o som das moletas,

E bem te sinto tossir:

Assim natureza o quis;

Já em teu rol me alistaste;

Já em triunfo infeliz

Uns óculos arvoraste

Neste vencido nariz:

Vens agora em teu vassalo

Imprimir novos ferretes;

Aos justos me humilho e calo;

Brotem nodosos joanetes,

Nasça em cada dedo um calo:

Mas não dês com mão maldita

Castigo sobre castigo;

Eu não fujo à lei prescrita;

E teimar tanto contigo.

Não e lei, é reivindica:

Queres que nojoso pranto

Já me creste rubros olhos?

E não farta inda com tanto,

Alças barrete de folhos,

E já me apontas um canto?

Já me mandas, que abafado,

Mártir de algozes receios,

Pardo lenço sobraçado,

Tente convulsos passeios

No meu galego encostado?

Venha o mal, mas não se apresse;

Sobre o consultado espelho

Meu rosto não esmorece;

Queres saber quem é velho?

É velho quem o parece:

Sei que a calva me condena;

Que importuna cor desdoura

 grenha, pouca, e pequena;

Mas esta marrafa loura

Lança um véu sobre a gangrena:

Não me venha já fechar

Apressada mão ferina;

Tenho uma alma, e posso andar;

Quero da fiei Nerina

Pela rua passear:

Sisudo amor nos prendeu;

Nerina não quer ver rotos

Os laços que me teceu;

Quer consagrar nossos votos

Ante a faixa de Himeneu:

Velhos da última idade,

Ao longo calção estreito

Mandam apertar metade.

Porque inda traz o defeito

De andarem nele à vontade;

Pois se ha tantos refundidos

Com quem fazes grossa a vista,

Seja eu dos favorecidos;

Aumenta comigo a lista

Dos teus escravos fugidos:

Deixa, enfim, deixa abrandar-te;

Quando não, rebelde presa.

Hei de as forças disputar-te;

Tens por ti a natureza.

Eu tenho o costume e a arte:

Troca a arte anosos freixos

Em dourado bergantim;

Troca em ninfas toscos seixos;

E torna em alvo marfim

Podres, solitários queixos:

Que imporia que a cor grisalha

Me infame o rosto ronceiro.

Se enquanto da Europa ralha,

Leva falador barbeiro

Os meus anos na navalha?

Se em cortesã sociedade

Lésbia contrafaz denguice;

E fiada no alvaiade.

Quer tributos na velhice.

Sem os ter na mocidade:

De tigelas rodeada,

Se à vontade os anos troca;

E por ficar bem pintada.

Com colher dentro da boca

Alteia a face engilhada:

Se, a surda orelha aplicando,

Por mostrar que ouvira tudo,

Vai co’a cabeça aprovando

Maganão, que em ar sisudo.

Serpente lhe está chamando:

Se assim mesmo quer amantes;

Se Alcino ajustando à lira

Mentirosos consoantes,

A seus joelhos suspira

Pelos brincos de diamantes:

Moço de mesquinha sorte,

Que tendo à indigência horror,

Vende amoroso transporte,

E entoa os hinos de amor

Ao simulacro da morte:

Pois se a Lésbia é permitido

Rebelar-se à natureza,

E a seu duro açoute erguido;

Porque estúpida baixeza

Hei de eu dar-me por vencido?

Cedam trêmulos jarretas,

Que já quatro idades contam;

De Cupido as mãos discretas

Sobre cinzas não apontam

As suas douradas setas:

Ceda Anfrônio, que assentado,

O queixo em vão mastigando,

Na poltrona agasalhado,

Vai sendo de quando em quando

Pelas filhas assoado:

Que dando risadas tontas

Da contradança aos enredos,

E rezando ao som de afrontas,

As netas apertam dedos,

Enquanto ele passa contas:

Sobre Anfrônio assenta bem

Teu açoute levantado;

Contra mim sem tempo vem;

Que em estando escanhoado.

Não me troco por ninguém:

Debalde de alcatruzar-me

Agora em vingança gostas:

Vejo Nerina a esperar-me.

Gritarei com dor de cosias,

Porém hei de endireitar-me:

Gemam, subindo a calçada.

Meus torcidos ossos velhos;

Que com a porta cerrada,

Pondo a cara nos joelhos,

Tomarei folgo na escada:

Entrarei fazendo agrados,

Comprados dentes mostrando

Os meus beiços ensinados;

E nos aventais lançando

Mãos cheias de rebuçados:

Direi mil amores ternos,

Ante Nerina ajoelhado;

Mascarando os meus invernos

Com cabeção encarnado,

E botõezinhos modernos:

“Meu tudo, vem um primor;

Vale mais que mil paraltas;

É o retrato do Amor;

Bem lhe estão as feições altas;

Vem hoje mesmo uma flor:”

“Senhora, são os enganos

Da beleza companheiros;

Em mim só ha desenganos;

Tendes nestes cavalheiros

Mais prendas, e menos anos:

“Outra idade me convinha

Para vos ser bem aceito;

A acender a paixão minha

Vênus contra o vosso peito

Seus cisnes não encaminha:”

Beijo-lhe a nevada mão,

E vou por ela mandado.

Pondo um chapéu de galão,

Repetir, com pé virado,

Castelhana relação:

Mas tu, velhice raivosa,

Só comigo impertinente,

Desigual, escandalosa.

Com tantos tão indulgente,

Comigo tão rigorosa!

Forjando na testa injusta

Vis ideias insultantes,

Gritas, que Nerina é justa;

Que me lança aos circunstantes,

E os diverte à minha custa:

Que é a travessa Nerina,

Que me fez ao sol expor

Dez manhãs a uma esquina;

Sendo as pagas deste amor

Risadas, e uma maligna:

Que fios sete amantes seus

Que suspiramos feridos

Co’as setas do cego deus,

Escuta os ternos gemidos;

Mas por mofa, só os meus:

Que os olhos, que eu chamo sóis,

Mestres de atrativas tretas.

Tem só ouro por faróis;

Que ali forja Amor mil seitas.

Que levam na ponta anzóis:

Mas que bárbara insolência!

Que injusto, infernal conceito!

E és tu irmã da prudência?

Infamar um casto peito,

Trono de amor e inocência?

Unir-se a noite co’a aurora.

Ver rebentar d’água fria

Viva chama abrasadora,

Mais fácil isto seria,

Que ser Nerina traidora:

Seus fiscais meus olhos são,

Inda d’antes que os seus passos

Tocassem paterno chão;

Vi-a crescer nos meus braços,

Leio no seu coração:

Sem mim nunca pôde estar;

Co meu moço à noite vou

A sua porta rondar,

Quer saber que ali estou.

Gosta de ouvir-me escarrar:

Contando histórias de fadas,

Em horas que o pai não vem,

E co’as pernas encruzadas.

Sentado ao pé do meu bem,

Lhe dbo as alvas meadas:

Seus escritos, que me afirmam

Singelo amor, fé segura,

Com o seu sangue se firmam,

Pelos meus olhos o jura,

E as criadas o confirmam:

A cassa, a fina sedinha.

De que as gavetas são fartas,

Com inveja da vizinha,

O pai mesmo lê as cartas,

Em que lh’as manda a madrinha:

Quando alguém mais cedo chega

Nos dias de companhia.

Aos p’rigos nunca se entrega;

Leva sempre a austera tia,

Inda apesar de ser cega:

E tu, velhice cruel,

Manchas tão justa paixão!

Com a língua molhada em fel

Manchas puro coração,

A si e a mim tão fiel!

Mas ainda a ser evidente

Quanto queres inventar,

Apostolo impertinente.

Para que hás de tu suar.

Se não sua o padecente?

Doces expressões sinceras,

Meigo carinhoso dó,

Supõe que não são deveras;

Por ventura sou eu só.

Que me nutro de quimeras?

Se pôs natureza crua

Em cada um, um furor.

Só em mim a espada nua?

Se a minha teima é o amor.

Todos os mais tem a sua:

Fábio, antigo cavalheiro.

Mas que herdou só pergaminhos,

Quebrando hoje o mialheiro,

Deixou rotos os filhinhos,

E comprou um reposteiro:

Pede esmola em baixa voz:

E alegre sua alma nobre,

Zomba da pobreza atroz.

Beijando no dado cobre

As armas de seus avós;

Tício de versos falidos

Fabricante impertinente,

Uns curtos, outros compridos,

Quer que gemam igualmente

As imprensas, e os ouvidos:

Enfastiados fregueses

Juram que este autor é louco;

O cego grita seis meses;

E à noite, raivoso e rouco,

Conta os mesmos entremezes:

Mas freira, que tem dinheiros,

E da Fênix Renascida

Repele tomos inteiros;

Dois triênios incumbida

De dar mofes nos oiteiros;

Que hoje com dois estupores,

Buscou dos banhos o abrigo;

Pródiga em chá e em louvores,

E quem desforra este amigo

Do desprezo dos leitores:

Tício ri de sem-razões,

Vende ás lendas pelo vulto

As divinas produções;

E tem dó do povo estulto,

Que gosta mais do Camões:

Pois se aqui na terra dura,

Que tu empeiorado tens,

Não ha sólida ventura,

Deixa-lhe ao menos os bens,

Que finge a humana loucura:

Mas tais argumentos são

Paia o meu caso escusados;

De Nerina a estimação.

Firme amor, doces agrados,

Não são bens de opinião:

Velho que atento namora,

Que arrosta calmas intensas

Por servir a quem adora;

Que lhe cobra logo as tenças,

Que é comprador da senhora;

Que é calado, que é polido,

Que tem um coração liso.

Com outras não dividido.

Pelas damas de juízo

É aos moços preferido;

Que faz sobrancelha preta,

Corpo esbelto, olhos bonitos.

Se sabe a dama discreta.

Que nos cafés seus escritos

São a segunda gazela;

Mil relógios, mil fivelas.

Que aos Adônis muitas deram

Para uma irmã ir a Belas,

Á terça feira penderam

Nas cabanas das adelas.

Cuidas que é um corolário

Ser velho amante infeliz?

Amor é muito arbitrário;

Manda este sábio juiz

Muitas vezes o contrario:

Roto dicionário antigo

Me dá Neste assunto a mão;

Trata d’’este mesmo artigo;

E ainda que é mera ficção,

Atiça a luz ao que eu digo:

Branda doença tocava

De moço marido o peito;

Terna esposa o não deixava;

Desgrenhada sobre o leito,

Triste pranto derramava:

Vem loquaz medico forte,

Que com a pena homicida

Governa as cousas de sorte,

Que nos esteios da vida

Levanta o trono da morte:

Por ele os ais derradeiros

Em milhões de tetos voam;

Por ele folgam herdeiros;

E em mil ermos adros soam

As enxadas dos coveiros:

A triste vítima então,

Que o último instante goza,

Porque caíra em tal mão.

Passou dos braços da esposa

Para as garras de Plutão:

Não foi ver a clara luz.

Que em doce silencio raia

Nesses vastos campos mis,

Aonde o filho de Maia

Piedosas sombras conduz:

Foi ao reino dos espantos;

O coitadinho pasmava,

Quando ali viu tais, e tantos;

Viu muitos que ele cuidava

Que eram Neste mundo uns santos:

Mas o que mais o admirou

Foi ver seu velho criado,

Que ele dos bons pães herdou,

For longas cãs abonado,

E a quem a casa entregou:

Homem, lhe diz, que a ambição

Me viesse aqui trazei-,

Pede-o a justiça, e a razão;

Quis meu filho enriquecer,

E para ele fui ladrão:

Mas de ti me maravilho;

Dize, ó homem de conselho,

Porque vieste a este trilho?

“Vim, responde o aflito velho,

Por ser o pai do tal filho:”

Com esta história te ensino...

Porém tu me tens vendido;

E às ideias que combino.

Vás c’o teu queixo caído

Dando um sorriso maligno:

Dizes que os anos escondo,

Fundando razões nos ventos;

Que à parte a verdade pondo,

A sisudos argumentos

Só com tabulas respondo;

E enquanto te estou provando,

Que me devem ter amor.

Vás as seta aliando;

E o traído pregador

Com elas ameaçando:

Fira embora a mão mesquinha,

Que eu nunca lhe cederei;

E Nerina a paixão minha;

E por casas andarei

Atrás d’ela em cadeirinha:

Ela virá ajudar

Meus tardos, mal firmes passos

E por não me constipar,

Irão os seus alvos braços

As vidraças abaixar:

Sua boca esfriará

Meu chá, se quente o sentir;

Meus óculos limpará;

E para me fazer rir,

No seu nariz os porá:

Perdes enfim os cuidados

Sem vires c’os teus sequazes,

Triunfantes apupados.

Brinco e medo dos rapazes.

Os sujos gatos-pingados:

Então quando tendo alçado

Das tristes, feridas casas,

A morte seu vôo ousado,

Encolher as negras asas,

E pousar no meu telhado;

Quando os dias que me agouras

Sentirem o última trio

Que em teus cofies entesouras,

Ê a Parca em meu débil fio

Fechar as fatais tesouras;

Então sim, então venceste;

Os teus olhos fartarás

No triunfo que tiveste:

Mas também então verás

A loucura que fizeste:

Sem um velho assim jucundo,

Que ponha cor, ponha dentes,

Quais são teus bens, qual teu fundo?

És o terror dos viventes,

És o maior mal do mundo:

Sem mim, sem minhas trapaças,

Sem ternura, sem meiguice,

Sem estudadas negaças,

Como andaria a velhice

A par do amor e das graças?

Chora então quem te arrancou

O arraigado vitupério;

Que os horrores te afastou;

Que adoçou o teu império,

E que, em te negar, te honrou:

E sobre uma campa breve.

Com profundado lavor.

Que a mão do tempo não leve,

Em honra lua, e do amor.

Este epitáfio me escreve:

“Aqui, lisa pedra encobre.

Um peito nunca infeliz;

Todo o amante ânimo cobre.

Vendo que este foi feliz.

Que além de velho, era pobre.”