OFERECENDO UM PERUM EM CASA ONDE TODOS OS DOMINGOS DAVAM AO AUTOR ESTE PRATO
Senhora, também um dia
Entrarei co’a frente erguida;
Não serei na vossa mesa
Dependente toda a vida;
Nem sempre abatido pejo
Dirá n’esta cara feia
Quanto doe a um peito altivo
Malar fome em casa alheia:
Airoso, gordo perum,
É meu soberbo presente;
Traz inda as penas molhadas
C’o pranto da minha gente;
No santo dia esperavam,
Quebrando antigo jejum,
Cravar inespertos dentes
Neste primeiro perum;
A russa, magia Josefa,
Ergueu queixume sentido;
Custou-lhe mais esta ausência,
Que a do defunto marido:
O louro, alvar galeguinhna
Chegou aos olhos seu trapo;
Tinha vistas sobre a carne,
E muitas mais sobre o papo.
Seu almoço requerendo
Em luzindo a madrugada,
Na esquerda, grossa latia
D’ambas as partes barrada;
Na destra, com branda cana
O seu pupilo guiava;
Em tenras, públicas malvas,
Para si o apascentava;
Quando lhe mandei trazer-vos
O bom companheiro seu,
Pedindo-me coxos meses,
Me disse, que o trouxesse eu.
Eu o trago; a oferta é pura,
Mas a tenção a envenena;
Traz escondida uma usura,
Maior, que a da meia sena.
Com um sorriso aceitai
O atraiçoado convite;
Vem a morrer uma vez.
Porque muitas ressuscite.
Curai todos os domingos
A minha doença interna;
Sobre a mesa milagrosa
Seja esta ave, uma ave eterna:
De outra que finge a poesia,
Trocai em verdade a peta;
E seja um negro perum
A fênix deste poeta:
Na ondada, pia toalha,
Co’a benção da vossa mão
Seus frios, despidos ossos.
De carne se cobrirão:
Consenti, que este oco peito
Ao prodígio se consagre;
E que dentro em si coloque
A mor parte do milagre;
Quanto ao padre pregador,
Meu voto é não convidá-lo;
Porque ha de comer o assunto
Muito melhor que pregá-lo.