OFERECENDO UM PERUM EM CASA ONDE TODOS OS DOMINGOS DAVAM AO AUTOR ESTE PRATO

By Nicolau Tolentino de Almeida

Senhora, também um dia

Entrarei co’a frente erguida;

Não serei na vossa mesa

Dependente toda a vida;

Nem sempre abatido pejo

Dirá n’esta cara feia

Quanto doe a um peito altivo

Malar fome em casa alheia:

Airoso, gordo perum,

É meu soberbo presente;

Traz inda as penas molhadas

C’o pranto da minha gente;

No santo dia esperavam,

Quebrando antigo jejum,

Cravar inespertos dentes

Neste primeiro perum;

A russa, magia Josefa,

Ergueu queixume sentido;

Custou-lhe mais esta ausência,

Que a do defunto marido:

O louro, alvar galeguinhna

Chegou aos olhos seu trapo;

Tinha vistas sobre a carne,

E muitas mais sobre o papo.

Seu almoço requerendo

Em luzindo a madrugada,

Na esquerda, grossa latia

D’ambas as partes barrada;

Na destra, com branda cana

O seu pupilo guiava;

Em tenras, públicas malvas,

Para si o apascentava;

Quando lhe mandei trazer-vos

O bom companheiro seu,

Pedindo-me coxos meses,

Me disse, que o trouxesse eu.

Eu o trago; a oferta é pura,

Mas a tenção a envenena;

Traz escondida uma usura,

Maior, que a da meia sena.

Com um sorriso aceitai

O atraiçoado convite;

Vem a morrer uma vez.

Porque muitas ressuscite.

Curai todos os domingos

A minha doença interna;

Sobre a mesa milagrosa

Seja esta ave, uma ave eterna:

De outra que finge a poesia,

Trocai em verdade a peta;

E seja um negro perum

A fênix deste poeta:

Na ondada, pia toalha,

Co’a benção da vossa mão

Seus frios, despidos ossos.

De carne se cobrirão:

Consenti, que este oco peito

Ao prodígio se consagre;

E que dentro em si coloque

A mor parte do milagre;

Quanto ao padre pregador,

Meu voto é não convidá-lo;

Porque ha de comer o assunto

Muito melhor que pregá-lo.